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07-03-2012

O ornitorrinco albino da Malásia ( Ou simplesmente vida de mãe)

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Às 6h30 da matina, seu despertador personalizado te acorda com seu toque especialíssimo:

"Mamãe, o solzinho já saiu a casinha dele. Vamos levantar."

E você é que ensinou a história do bendito solzinho que sai de casa. Você que queria tanto dormir só uns dez minutinhos a mais.

Você prepara a mamadeira e o café. Você tenta se arrumar enquanto ele insiste para que você brinque com ele de trenzinho. Você explica umas mil vezes que tem que trabalhar e não pode brincar. Você aguenta umas dez birras e os gestos dramáticos. Ele se atira emburrado na cama e no sofá, quando não se tranca no banheiro. Você continua sem saber de onde ele herdou tanto talento para a dramaturgia.

Você finalmente sai e trabalha e trabalha. Às 11h50, seu chefe te chama na sala para uma reunião. Você e os outros convidados esperam que ele conclua uma importante ligação, que não se conclui. Já é meio dia e você precisa levar seu filho à escola às 13h15. Tempo de trânsito até em casa pode chegar até 45 minutos. Você decide fugir, mesmo que o chefe fique uma arara e você leve uma bronca depois. Tudo bem, como se diz na roça, você já está ficando com o couro grosso.

Você foge e de repente se lembra que ainda não o ajudou a fazer a tarefinha da escola. E a tarefa, encomendada no final no dia anterior, inclui pregar uma fotografia de sua grande pequena família. Você percebe que das 5.832 fotos que você tirou de seu filho desde que ele nasceu, de apenas umas 5 ou 6 você consta, e que nenhuma delas você imprimiu.

Você corre a encontrá-la e imprimi-la e depois corre a chegar em casa e corre a pregar a tal foto  e engolir a comida  Prazo recorde. Você fez tudo isso em uma hora e 15 minutos. E seu filho está entregue na escola e você está pronta para o novo desafio escolar, que provavelmente consiste em arranjar algo bem comum, como uma fantasia de um ornitorrinco albino da Malásia que ele deverá vestir no próximo teatrinho da próxima festinha. As escolas atualmente parece que realizam todo o tempo uma grande gincana em que o desafio é a cada dia atender a uma nova e extravagante exigência

 Aliás, por falar em festinha, você ainda se lembra do teatro de fim de ano, em que você gastou R$ 80 reais com uma fantasia de duende verde. Sim, ele aceitou vestir a fantasia, mas não aceitou pisar no palco, ele e mais uma única criança em toda a escola. Para sua alegria de mãe.

E falando ainda em escolinha, na sala de seu filho, há 12 crianças, mas pelo menos umas 20 festas de aniversário ao longo do ano, o que leva você a desconfiar de que algumas mães comemoram o aniversário de seus filhos mais de uma vez ao ano ou que têm gêmeos, pagando a escola para apenas um e alternando a freqüência.  E quando há festa, logo há que comprar presente. E você só é avisada disso no último minuto do segundo tempo, ou seja, às 18h45 quando você é uma das últimas mães a chegar para buscar seu rebento.

E no entanto, você não se arrepende de sua escolha um só momento, pois todo dia, ao acordar e te beijar e te abraçar, ele te lembra que “o solzinho já saiu da casinha dele”.

 

17-02-2012

Sobre Leo Lynce, Alberto Caeiro, poetas, pastorinhas e os amores possíveis

Triste.jpg

Canção da felicidade


“Houve um poeta que cantava
uma canção de amor que começava assim:
Quando virás, Pastorinha dos meus sonhos
trazer a felicidade para mim?

Um dia, de repente,
trazendo a felicidade,
a Pastorinha chegou.
Mas o poeta, inconcebivelmente,
nunca mais cantou.”

Quando recentemente conheci esse texto do escritor Leo Lynce, pensei a princípio que se tratava de Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, o guardador de rebanhos, aquele que diz que “pensar é estar doente dos olhos”.
Pois o texto me fez adoecer ao pensar em como o amor e a criação literária vêm sendo vistos há séculos e até hoje por muitos, por grande parte da humanidade. O amor tem sido há muito tempo associado à impossibilidade, à infelicidade. Como diz Vinícius de Moraes, “todo grande amor só é bem grande se for triste”.
Desde o surgimento do amor cortês na Idade Média, dos trovadores, desde as cantigas de amor e de amigo medievais, o amor só é visto como pleno, grande, digno de ser cantado, se for impossível, improvável, repleto de obstáculos. E depois vieram as grandes obras que consolidaram o romantismo, as histórias de amor paixão-romântico que moldaram nosso modo de encarar os relacionamentos. Histórias contadas e recontadas de casais desencontrados, Tristão e Isolda, Abelardo e Heloísa, Romeu e Julieta.
Dessas histórias derivaram os clichês e  grandes dores para a humanidade, e, claro, as nossas maiores e melhores obras de arte: as canções mais chorosas. Oh, Chico, “quando olhaste bem nos olhos meus e o teu olhar era de adeus...” E o nosso tango insensato, uma dança em que nunca se acertam os passos, o cultivo de uma sede que nunca poderá ser saciada. Não poderá?
Do mesmo modo, tornou-se uma espécie de lugar-comum dizer que para criar é preciso estar a sofrer e principalmente estar a sofrer de amor, a sofrer por um amor improvável, impossível, não correspondido. Os poetas seriam seres movidos a dor.
Creio sim que há certa verdade nisso, porque a dor nos convoca a vasculhamentos, a dor nos aprimora e lapida. Bem o diz Manuel Bandeira em sua estatuazinha de gesso: “só é verdadeiramente vivo o que já sofreu”. Porém, o amor quando sempre tão recheado de insucessos, o desejo sempre tão premente e adiado, pode levar a neuroses, psicoses e até a desfechos violentos e trágicos.
E se a criatura, o pobre poeta está sempre a padecer desses adiamentos, se sofre de uma sede nunca saciada, uma hora ou outra, paralisa-se, seca a sua fonte poética, é condenado a um silêncio impotente. Porque se a criação sobrevive de desejo, também necessita de orgasmo. E na paz que há após o êxtase, na lassidão que há após o rascunho do texto, uma nova história começa. Começa talvez a melhor parte.
  Como também já se tornou lugar-comum dizer, escrever é 10% inspiração e 90% transpiração. Duvido sinceramente que as grandes obras da humanidade tenham sido escritas em arroubos de paixão. Sim, ela pode tê-las desencadeado. Mas certamente foram necessário dias, meses e anos de calmaria, de dedicação, de tranquilos coitos conjugais, de papai-e-mamãe, para que se transformassem nos textos eternos em que se tornaram. Desencontros, onanismo, coitos interrompidos talvez tenham criado lindos poemas, mas não todos, não a maior parte.
Então, como na história desse poeta citado por Leo Lynce, muitos creem que a criação é mesmo incompatível com a felicidade.  Se finalmente o poeta alcança o objeto desejado, o ser amado, se sacia seu desejo, sua voz se cala, morre seu canto. Eis o engano em que temos sido educados por nossa tradição literária ocidental, por nossos mitos de amor-paixão romântico. Ficamos paralisados diante da possibilidade de um relacionamento que não seja tango, relâmpagos e trovoadas. E se de repente nos acontece uma realização plena, e se de repente nos encontramos apaziguados? Também temos horror à felicidade. Ensinaram-nos muito bem ensinado que sofrer é o único caminho possível, que só  há grandeza  e beleza nos amores impossíveis.
Mas e os amores possíveis? Morreremos se por acaso se materializarem? Amores possíveis não são nem trovas de poetas, pastores e pastorinhas, nem tampouco  contos de fada, porque nestes os personagens  foram felizes para sempre, e o sempre não existe, assim como também não existe para todo o sempre a infelicidade.
Ao final deste texto, relendo algo da obra de Alberto Caeiro, vi como estava enganada. Não há certamente semelhança entre o modo como Caeiro e o poeta de Leo Lynce encaram o amor. Distraí-me e me confundi com a figura da pastorinha, e outras confusões cá minhas, mas eis como para Caeiro o amor não é o fim do canto, a infelicidade ou o afastamento de si e da natureza.

 

Quando eu não te tinha
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo.
Agora amo a Natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima ...
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor —
Tu não me tiraste a Natureza ...
Tu mudaste a Natureza ...
Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim,
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as cousas.
Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou.
 

P.S: Este tema, o conceito de amor-paixão romântico que herdamos da tradição literária ocidental é muito bem abordado pela psicanalista Regina Navarro em seu livro A Cama na Varanda. Vale ler e reler.


 

16-02-2012

Antologia de textos, músicas e pessoas

  Não deixe ele entrar

 

"antologia de textos,músicas e pessoas",vampiros

Quando fui tornar a beijá-lo,

 vi que havia sangue meu

 em seus lábios.

 Aliás, havia sangue meu por todo lado,

 nas taças,

 no teto,

 nos lençóis,

 nos viróis revirados,

 nas maçanetas das portas,

 até nas pobres penas dos travesseiros.

 Havia sangue em meus poemas,

 em meus joelhos.

 Havia sangue respingado e escrito

 como batom no espelho,

 tentativas vãs e desesperadas

 de despedida.

 Quando vi,

 vi com que espécie de amor eu me cortara,

 vampiresco.

 E eu te dava

 o melhor do meu sangue.

 E você não me dava nada.

 Me deixava gélida, exaurida e pálida.

 Nem flores,

 nem fitas,

 nem laços,

 nem licores,

 nem três tristes dinheiros,

 nem a suave complacência com que você tratava

 o mundo inteiro.

 Comigo era no corte e no chicote,

 na mandíbula  e nas seringas,

 na caverna e nos cabelos.

 Vi como eu tinha emagrecido a olhos vistos,

 mas que, para minha surpresa,

 não, eu não murchara.

 Antes, eu havia florescido em cálcio,

 porque o melhor que eu te dera

 e que você me sugara,

 apenas sangue,

 o meu melhor não era.

 O meu melhor são meus ossos,

 largos, fortes, inquebrantáveis,

 que belamente despontaram,

 nos ombros,

 nas rótulas dos joelhos,

 no crânio, sob os restos de cabelo.

 A minha essência.

 O melhor de mim,

 a capacidade intensa

 de amar e ser amada,

 de abrir-me,

 de dar-me mesmo insensata à violência,

 de me consentir refém e vítima.

 Mas isso foi ontem,

 porque hoje sei que os vampiros

 só entram quando a gente os convida

 e chama e deixa.

 Quando  já está sangrando.

 E eles sentem longe o cheiro...

 Mas que aroma terei agora?

 Um corpo que sabe a cova?

 Não sou mais atraente

 para seus caninos.

 E se por acaso,

 num  velho hábito de gula calculada,

 você tentar me  beijar ou morder novamente,

 será desfeito em cacos

entre os meus dentes

que sabem a vida.

 

Para ouvir: http://www.youtube.com/watch?v=Q5qUv2OREFs&feature=re...