| Algo mais: http://www.flickr.com/photos/cassia_fernandes/ E: Os objetos produzidos pela nossa habilidade ancestral de usar o polegar talvez digam mais sobre mim do que a minha própria boca estendida em beijo ou meu lábio virado para baixo contra a minha vontade e pelo avesso. Os objetos aos quais me afeiçôo, aos quais peço socorro em desespero em vez de a ídolos de pés de barro. Dizem que sou romântica, por causa dos móveis em estilo inglês, dos cristais presentes da festa de um casamento desfeito, das reproduções cafonas de pintores famosos nas paredes, que prefiro à arte contemporânea que não compreendo. Não amo em geral ao que não compreendo, embora ame demais o que desconheço, exceto a Ele, o Outro, que Narciso acha louco, acha louco, acha louco Rendas, pérolas e jóias ou imitações de jóias que lembrem peças antigas, um certo ar de Moulin Rouge, Toulouse Lautrec ou qualquer prostituta francesa. Sou obcecada por caixas de todos os tipos, porque encerram tesouros, segredos, aranhas peludas e suas teias. Principalmente caixinhas de música como aquela da bailarina da prima rica e aquela outra do gramofone que joguei fora num ataque de fúria hercúlea ou odissesca. - eu viajava ainda para tomar a fresca nas estrelas- ou aquela outra, minúscula e que até hoje me faz penar e ver la vie en rose escura. É a única coleção que eu ainda faria. Passo a usar o perfume dos homens que amei ainda. Guardei meus longos cabelos até virarem farinha, porque eu os prefiro curtos e para escarnecer de Dalila. Sim. Ímãs de geladeira - irmãs, a força não está nos pêlos, mas nas pupilas! - e não qualquer ímã, apenas os delicados, muito bem esculpidos, miniaturas que lembrem as viagens que fiz ou não fiz - gosto de ver a vida assim diminuída ( do alto dos aviões contemplar as piscinas pequeninas) - a Paris, me levando sempre na mala, mala sem alça, alça de sutiã manchada de sebo, meia-taça para segurar o queixo e meia-calça rendada pra ser tachada de fácil e soltar os fios! Vestidos floridos, salto agulha e batas que ocultem uma cintura que engrossa sem filhos a cada amor não correspondido. E os amores nunca são correspondidos. porque talvez não fossem assim amores ou não tivessem sido escritos. Ah, e veludos de todas as cores com seu ar decadente e quente e seu luto permanente, margaridas como flores preferidas, o cheiro de couro, mofo e cultura dos livros, abertos ao acaso e deixados em aberto como uma biografia inacabada ou em projeto. |