<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?> <?xml-stylesheet title="XSL formatting" type="text/xsl" href="/atom.xsl" ?> <feed xmlns="http://www.w3.org/2005/Atom" xml:lang="pt"> <title>Almofariz - por Cássia Fernandes</title> <link rel="self" type="application/atom+xml" href="http://almofariz.blogspirit.com/atom.xml"/> <link rel="alternate" type="text/html" href="http://almofariz.blogspirit.com/" /> <subtitle>Um empório de especiarias raras ou um blog para cama, mesa, poesia e roupa lavada</subtitle> <updated>2008-09-07T12:25:51-04:00</updated> <rights>All Rights Reserved blogSpirit</rights> <generator uri="http://www.blogspirit.com/" version="5.0">blogSpirit.com</generator> <id>http://almofariz.blogspirit.com/</id>  <entry> <author> <name>Cássia Fernandes</name> <uri>http://almofariz.blogspirit.com/about.html</uri> </author> <title>REENTRÂNCIAS E SALIÊNCIAS</title> <link rel="alternate" type="text/html" href="http://almofariz.blogspirit.com/archive/2008/09/07/batendo-na-mesma-teclaaaaaaaaaaaa-bbbbbbbbb.html" />  <id>tag:almofariz.blogspirit.com,2008-09-07:1624322</id> <updated>2008-09-07T11:54:04-04:00</updated> <published>2008-09-07T10:55:00-04:00</published>   <summary>  Batendo na mesma tecla:bbbbbbbbbbbb...  
 
 Juro que gostaria de escrever...</summary> <content type="html" xml:base="http://almofariz.blogspirit.com/"> &lt;strong&gt;Batendo na mesma tecla:bbbbbbbbbbbb...&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
 Juro que gostaria de escrever outras coisas. Sei que estou cansando as pessoas à minha volta  e a mim mesma batendo na mesma tecla, samba de uma nota só, falando e escrevendo sempre sobre o mesmo tema: a maternidade, claro. Juro. Mas simplesmente não dá. Por enquanto não dá. &lt;br /&gt;
Como falar sobre outro assunto, se durante estes meses iniciais, a gente se ocupa quase 24 horas de um ser completamente dependente, cuidando, amamentando, limpando? Se a gente praticamente não sai à rua, quase não encontra as pessoas e quase esquece que existe um mundo lá fora? As mulheres que são mães e que ainda serão certamente irão compreender essa repetição. Os homens, para infelicidade deles, não. Que morram de inveja mesmo dessa deliciosa redundância!&lt;br /&gt;
O pouco tempo que sobra - este aqui agora - enquanto meu pequeno dorme, quero processar as centenas de emoções novas, alegrias, angústias, reflexões e aprendizados dessa fase. E para processar, nada melhor do que escrever. Coisa que infelizmente também quase não tenho feito, ao menos não no papel ou no computador. Tenho escrito apenas imaginariamente, enquanto dou banho, troco uma fralda: textos que logo se perdem, não se materializam e não são compartilhados jamais.&lt;br /&gt;
Mas hoje me decidi: tentarei registrar ao menos a terça parte do que venho sentindo e pensando. Talvez isso interesse a alguém. Talvez seja de algum modo útil às mamães em primeira viagem como eu. Talvez não. Mas certamente será útil a mim, para que eu faça uma espécie de higiene interior, para que eu separe o lixo daquelas emoções e reflexões que merecem ser preservadas. Para que eu mantenha a sanidade (sim, a maternidade pode ser enlouquecedora) e diga um alô ao mundo lá fora, porque, afinal, a internet tem sido praticamente meu único contato com a relidade além-bebê. Se levarei tal decisão adiante? Os próximos posts dirão. Não sou lá exemplo de constância e tanto menos agora que minhas ações estão condicionadas às necessidades de outra pessoa. </content> </entry>  <entry> <author> <name>Cássia Fernandes</name> <uri>http://almofariz.blogspirit.com/about.html</uri> </author> <title>Oração de mãe</title> <link rel="alternate" type="text/html" href="http://almofariz.blogspirit.com/archive/2008/08/21/oracao-de-mae.html" />  <id>tag:almofariz.blogspirit.com,2008-08-21:1614118</id> <updated>2008-08-21T20:06:12-04:00</updated> <published>2008-08-21T19:30:00-04:00</published>   <summary>   
 
Epígrafe: 
 
Em amor e prece 
não se põe preço 
 
A gente sonha...</summary> <content type="html" xml:base="http://almofariz.blogspirit.com/"> &lt;img src=&quot;http://almofariz.blogspirit.com/media/02/02/715217d0890a7dff8b6ea2b28c4313e6.jpg&quot; id=&quot;media-237810&quot; title=&quot;&quot; alt=&quot;c9590c79bf91710db56234cf71bc46d3.jpg&quot; style=&quot;border-width: 0; float: left; margin: 0.2em 1.4em 0.7em 0;&quot; /&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Epígrafe:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em amor e prece&lt;br /&gt;
não se põe preço&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A gente sonha pro filho&lt;br /&gt;
tudo o que de bonito vê nos livros.&lt;br /&gt;
A gente sonha que ele seja um livre pensador.&lt;br /&gt;
Mas a gente sonha sobretudo&lt;br /&gt;
que ele seja livre.&lt;br /&gt;
Livre para ganhar o pão&lt;br /&gt;
da carne,&lt;br /&gt;
sem o diabo amassá-lo&lt;br /&gt;
e do espírito,&lt;br /&gt;
sem que seja partido em dor&lt;br /&gt;
como Cristo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mas que Deus o livre&lt;br /&gt;
de nosso próprio amor,&lt;br /&gt;
armador de grilhões,&lt;br /&gt;
chantagista,&lt;br /&gt;
do que faz refém:&lt;br /&gt;
&quot;mamãe te ama&lt;br /&gt;
como não amará ninguém&quot;.&lt;br /&gt;
Pois a que diz:&lt;br /&gt;
&quot;por ti tudo sacrifiquei e fiz&quot;&lt;br /&gt;
é a que tranca no ninho,&lt;br /&gt;
a do voar não pode,&lt;br /&gt;
a que deve a fama Freud.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dizem que uma mãe&lt;br /&gt;
acerta&lt;br /&gt;
mesmo quando erra&lt;br /&gt;
ou que se erra&lt;br /&gt;
o faz na melhor das intenções.&lt;br /&gt;
Mas Deus livre os filhos e o inferno&lt;br /&gt;
das nossas culpas de mães,&lt;br /&gt;
dos nossos rosários de dores e lamentações,&lt;br /&gt;
dos joelhos reclamões &lt;br /&gt;
de  preces e martírios,&lt;br /&gt;
dos juros exorbitantes pelas noites mal dormidas,&lt;br /&gt;
da eterna ladainha&lt;br /&gt;
de Eva punida, &lt;br /&gt;
do véu hipócrita &lt;br /&gt;
da virgem imaculada que concebeu&lt;br /&gt;
e inconcebível.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Deus nos faça lembrar sempre:&lt;br /&gt;
ser mãe é antes de tudo um generoso&lt;br /&gt;
ato de egoísmo.&lt;br /&gt;
E a maternidade consentida&lt;br /&gt;
é antes um dar-se prazer e vida.&lt;br /&gt;
E o padecer no paraíso&lt;br /&gt;
 – não nos esqueçamos nunca disso – &lt;br /&gt;
foi um padecer e um ser escolhido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
***********&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Devo confessar,&lt;br /&gt;
ao me tornar mãe,&lt;br /&gt;
reaprendi a rezar.&lt;br /&gt;
Achei novo porquê de ser cristã.&lt;br /&gt;
Mas, Deus,&lt;br /&gt;
livrai meu filho de meu próprio mel&lt;br /&gt;
e mal.&lt;br /&gt;
E a mim,&lt;br /&gt;
que eu me mantenha sã! </content> </entry>  <entry> <author> <name>Cássia Fernandes</name> <uri>http://almofariz.blogspirit.com/about.html</uri> </author> <title>Versos esparsos para quando falta tempo na vastidão do espaço</title> <link rel="alternate" type="text/html" href="http://almofariz.blogspirit.com/archive/2008/08/09/versos-esparsos-para-quando-falta-tempo-na-vastidao-do-espac.html" />  <id>tag:almofariz.blogspirit.com,2008-08-09:1607636</id> <updated>2008-08-09T19:52:57-04:00</updated> <published>2008-08-09T08:45:00-04:00</published>   <summary>   
 
 Em mulher se bate com flor 
  
Tenho uma conhecida 
que foi...</summary> <content type="html" xml:base="http://almofariz.blogspirit.com/"> &lt;img src=&quot;http://almofariz.blogspirit.com/media/01/00/6da50e1aeb083c31328992655986e76e.jpg&quot; id=&quot;media-233631&quot; title=&quot;&quot; alt=&quot;d0cb05754c5c1dc339aeabdba83c5bcd.jpg&quot; style=&quot;border-width: 0; float: left; margin: 0.2em 1.4em 0.7em 0;&quot; /&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;strong&gt;Em mulher se bate com flor&lt;br /&gt;
&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;
Tenho uma conhecida&lt;br /&gt;
que foi espancada&lt;br /&gt;
por um vaso de margaridas.&lt;br /&gt;
E outra que levou uma boa sova&lt;br /&gt;
com um botão de rosa.&lt;br /&gt;
E no Dia Internacional da Mulher,&lt;br /&gt;
só não apanha quem não quer.&lt;br /&gt;
É um tal de distribuir rosa avulsa.&lt;br /&gt;
Um tal de reportagem melosa&lt;br /&gt;
na tevê,&lt;br /&gt;
com  mulher-frentista&lt;br /&gt;
de posto de gasolina,&lt;br /&gt;
nas ditas profissões masculinas,&lt;br /&gt;
passando batonzinho&lt;br /&gt;
pra não perder&lt;br /&gt;
o charme&lt;br /&gt;
e o clichê.&lt;br /&gt;
A gente não quer flor&lt;br /&gt;
nem rima pobre,&lt;br /&gt;
meu amor.&lt;br /&gt;
A gente quer cobre,&lt;br /&gt;
querida,&lt;br /&gt;
que da última vez&lt;br /&gt;
que flor encheu barriga,&lt;br /&gt;
o resultado foi visto&lt;br /&gt;
nove meses depois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
              ******&lt;br /&gt;
Por causa da numerologia&lt;br /&gt;
mudou seu nome&lt;br /&gt;
de Ana Faria &lt;br /&gt;
para Ana Fará&lt;br /&gt;
Com dos &quot;rrsssssss&quot;&lt;br /&gt;
rosnantes e fricativos&lt;br /&gt;
para ficar&lt;br /&gt;
mais afirmativa.&lt;br /&gt;
E positiva&lt;br /&gt;
no velho e bom estilo&lt;br /&gt;
Pollyana moça&lt;br /&gt;
Pollyana menina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
              ******&lt;br /&gt;
Os mais jovens&lt;br /&gt;
aos mais velhos&lt;br /&gt;
sempre querem impor:&lt;br /&gt;
a aposentadoria do amor. </content> </entry>  <entry> <author> <name>Cássia Fernandes</name> <uri>http://almofariz.blogspirit.com/about.html</uri> </author> <title>O Giocondo</title> <link rel="alternate" type="text/html" href="http://almofariz.blogspirit.com/archive/2008/05/25/o-giocondo.html" />  <id>tag:almofariz.blogspirit.com,2008-05-25:1558515</id> <updated>2008-05-25T15:50:07-04:00</updated> <published>2008-05-25T11:45:00-04:00</published>   <summary>     
 
 
Tudo o que eu fizer depois disso 
será obra menor, 
capricho...</summary> <content type="html" xml:base="http://almofariz.blogspirit.com/"> &lt;a href=&quot;http://almofariz.blogspirit.com/media/02/01/b6173d283643defa4f5123d4c9b924af.jpg&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;&lt;img src=&quot;http://almofariz.blogspirit.com/media/02/01/e37e705d26f002d9409e208aa7e9f39a.jpg&quot; id=&quot;media-195888&quot; title=&quot;&quot; alt=&quot;b6173d283643defa4f5123d4c9b924af.jpg&quot; style=&quot;border-width: 0; float: left; margin: 0.2em 1.4em 0.7em 0;&quot; /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Tudo o que eu fizer depois disso&lt;br /&gt;
será obra menor,&lt;br /&gt;
capricho de artista. &lt;br /&gt;
Minha obra-prima já foi escrita.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Rima pobre&lt;br /&gt;
verso manco,&lt;br /&gt;
romance sem clímax,&lt;br /&gt;
Personagens planos&lt;br /&gt;
e líquidos.&lt;br /&gt;
É tudo assim ínfimo&lt;br /&gt;
comparado&lt;br /&gt;
a Fernando,&lt;br /&gt;
ainda quando &lt;br /&gt;
recém-chegado,&lt;br /&gt;
recendendo&lt;br /&gt;
a pequenino.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Passei quase um ano&lt;br /&gt;
pensando&lt;br /&gt;
um homem,&lt;br /&gt;
arquitetando, alimentando,&lt;br /&gt;
construindo&lt;br /&gt;
e deu nisso:&lt;br /&gt;
meu Giocondo,&lt;br /&gt;
enigmático,&lt;br /&gt;
sereno,&lt;br /&gt;
em seu semi-sorriso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Tão perfeito&lt;br /&gt;
que por pouco não me gabo&lt;br /&gt;
de que já nasceu acabado&lt;br /&gt;
e que não precisa ainda&lt;br /&gt;
de umas lapidadas&lt;br /&gt;
e mãos de tinta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Porém sei que um filho&lt;br /&gt;
não é uma obra de carne&lt;br /&gt;
ou arte&lt;br /&gt;
emoldurada e pronta,&lt;br /&gt;
mas uma alma em obra&lt;br /&gt;
pintando-se,&lt;br /&gt;
aperfeiçoando-se&lt;br /&gt;
e abrindo-se&lt;br /&gt;
para o infinito.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Resta-me agora desfazer &lt;br /&gt;
o principal enigma,&lt;br /&gt;
maior ainda que o sorriso esfinge&lt;br /&gt;
de Mona Lisa:&lt;br /&gt;
achar sabedoria&lt;br /&gt;
para ajudar a transformar &lt;br /&gt;
em espírito sólido de homem&lt;br /&gt;
a esboço corpóreo&lt;br /&gt;
do menino.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Aos sete dias do nascimento de Fernando. </content> </entry>  <entry> <author> <name>Cássia Fernandes</name> <uri>http://almofariz.blogspirit.com/about.html</uri> </author> <title>A barriga maior que o olho</title> <link rel="alternate" type="text/html" href="http://almofariz.blogspirit.com/archive/2008/01/24/a-barriga-maior-que-o-olho.html" />  <id>tag:almofariz.blogspirit.com,2008-01-24:1471320</id> <updated>2008-01-25T10:21:15-04:00</updated> <published>2008-01-24T20:50:00-04:00</published>   <summary>   
 
 
Sabe aquela sensação de quando a gente é menina, véspera de...</summary> <content type="html" xml:base="http://almofariz.blogspirit.com/"> &lt;img src=&quot;http://almofariz.blogspirit.com/media/00/00/65f7f69424c55a1273fcc0b3a2cda154.jpg&quot; id=&quot;media-124180&quot; title=&quot;&quot; alt=&quot;012aa841e06d3b7d7a1ce54c7e215188.jpg&quot; style=&quot;border-width: 0; float: left; margin: 0.2em 1.4em 0.7em 0;&quot; /&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sabe aquela sensação de quando a gente é menina, véspera de aniversário e a gente pressente ou imagina ou suspira que o dia seguinte será todo nosso, de que um presente nos espera na esquina, no alto do armário, sob mistério, embrulho e laço, de que naquele dia terão cuidado com a gente de propósito, não nos virão entristecer ou contrariar, e mamãe irá preparar a comida preferida e nem irá reclamar a chinela no nosso bumbum da vida?&lt;br /&gt;
Sabe quando é véspera e a gente não dorme, o lençol que devia servir pra cobrir, não cobre, e a manhã nunca demorara tanto pra amanhecer? Sabe? O tempo tinha me feito esquecer o que era a alegria da véspera, a euforia da véspera, a fantasia da véspera, a delícia de acordar num sábado, saber que não há aula ou dever, e começar o dia assistindo a desenho animado na tevê. A maravilha de um caderno novo, limpinho, com todas as páginas tinindo pra ser escritas e pingar ali a primeira saliva de tinta.&lt;br /&gt;
Sabe que agora é como me encontro, em sentimento de véspera todos os dias, e a insônia nem é do desconforto da barriga que cresce e pesa? É a mais doce das doces ansiedades, obsessões-compulsivas. Mal conter-se. Mal caber-se você e o outro em si, e manter-se inquieta. Alisar cada fralda e flanela, como se a pele dele já estivesse nela. Ver nos desenhos e bordados a face de um desconhecido que já é amado. Sair pra comprar sapatinhos como pássaro que juntasse gravetos pra formar o ninho.&lt;br /&gt;
Sabe? É assim a sensação da espera. É assim ser a própria caixa em que está sendo transportado para o mundo nosso maior e melhor presente, o mais valioso e delicado, aquele por nós fabricado, o presente que é ser gente e que só nos é emprestado por um breve momento, e que irá dar sentido a tudo o que não faz sentido, e que explica por que temos no meio esse olho estranho que nos espreita, a vida inteira, chamado umbigo. &lt;br /&gt;
Então toda a inveja que a gente podia ter de ser menino-homem desvanece. Porque nada do seu pênis, carros, cargos, de sua conveniente insensibilidade masculina se iguala ou nos interessa. Porque tudo o que queremos está dentro. Temos afinal a certeza do que realmente importa, os nossos verdadeiros e seletos desejos claramente se mostram. Finalmente, não é mais o olho que é maior que a barriga. Tornou-se maior o ventre, que não serve apenas para dar apetite insaciável e criar lombriga.&lt;br /&gt;
A gente, pretensiosa, se sente a primeira molécula de carbono na sopa primeva do oceano. O que é incrivelmente corriqueiro e simples nos parecendo complicadamente raro. Um mero processo biológico-químico que se repete há séculos e, no entanto, como algo assim tão incrível pode sobrevir a mim, um ser tão imperfeito e cético?&lt;br /&gt;
Esse amor de espera é mal agüentar-se de vontade de abrir-se.  Todavia, é imperioso guardar-se, em segredos e conspirações de células e sentimentos, porque o que tanto esperamos, o que tão pacientemente embrulhamos e desembrulhamos, na verdade, não nos pertence. A maternidade é paradoxalmente um ato de generosidade e egoísmo. Damos ao outro a vida, nos damos a nutri-lo, mas é a nós mesmos que o presenteamos com um cartão de bem vindo! </content> </entry>  <entry> <author> <name>Cássia Fernandes</name> <uri>http://almofariz.blogspirit.com/about.html</uri> </author> <title>Amarelecer</title> <link rel="alternate" type="text/html" href="http://almofariz.blogspirit.com/archive/2008/01/11/amarelecer.html" />  <id>tag:almofariz.blogspirit.com,2008-01-11:1461130</id> <updated>2008-01-11T09:39:29-04:00</updated> <published>2008-01-11T09:35:00-04:00</published>   <summary>   
 
De repente a gente não sente aquele entusiasmo, aquela confiança cega...</summary> <content type="html" xml:base="http://almofariz.blogspirit.com/"> &lt;img src=&quot;http://almofariz.blogspirit.com/media/00/00/0720875196f4512bd2456f6da1a464de.jpg&quot; id=&quot;media-115411&quot; title=&quot;&quot; alt=&quot;82dd9373bb2c687a01e8bf8bb8039d3f.jpg&quot; style=&quot;border-width: 0; float: left; margin: 0.2em 1.4em 0.7em 0;&quot; /&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
De repente a gente não sente aquele entusiasmo, aquela confiança cega no futuro, já não tem a sensação de que todos os obstáculos podem ser saltados em olimpíada, de que no final tudo vai dar hollywoodianamente certo, de que o sucesso profissional e a felicidade amorosa nos esperam no virar de algumas esquinas. &lt;br /&gt;
	Subitamente, a gente se dá conta que envelhece e que grande parte, não tanto de nossas esperanças, mas de nossas ilusões, fenece. E não são apenas as rugas na descida dos olhos que nos conferem um ar fatigado, nem somente sulcos rasos que se transformam em cisternas em torno da boca, bochechas em franca queda e que nos convertem num tipo de pierrô deprimido. Há uma mudança a se operar dentro e é ela, mais propriamente do que os efeitos deletérios do tempo sobre os músculos e a pele, que nos rouba o tal do brilho juvenil dos olhos.&lt;br /&gt;
	Confrontados no espelho, lembramos que teoricamente ainda somos jovens e estamos ou deveríamos estar em nossa fase mais entusiasta e produtiva. Mas e os adolescentes, os vestibulandos confiantes e competitivos que pensam escolher uma profissão promissora, os profissionais na faixa dos vinte anos que anseiam progressos rápidos em suas carreiras, criticando impiedosamente tudo e todos? Um dia, remotamente, também já fomos assim: ávidos, algumas vezes arrogantes, meio inconscientes, sem tanto medo do novo e do ridículo.&lt;br /&gt;
	A gente também se espremia, grupos extensos de amigos repentinos, para caber no 10 por 15 da fotografia, ostentando uma alegria eufórica e rasa, como se vida fosse festa todos os dias. A gente também ria à toa de qualquer coisa e jurava não repetir os erros dos pais, dos derrotados, dos mal-sucedidos. Beijava os dedos em cruz prometendo que não iria se enterrar num casamento tedioso e emprego infeliz. Ansiava pelo final de semana, acreditava que tudo poderia acontecer num sábado à noite, que começaria dieta e mudaria de vida na segunda-feira. &lt;br /&gt;
	Minha mãe costumava cantar, quando me via devaneando: “todo menino é um rei, eu também já fui rei”. Já há certo tempo, sou minha mãe e tenho me flagrado lançando para as mulheres mais jovens um olhar fronteiriço entre a inveja e a pena. Inveja de sua alegria meio tola, de seu riso frouxo, vontade de casar, promessas de amor eterno e otimismo burro para com a vida, burro porque baseado apenas na esperança e na intuição, sem nenhum respaldo de razão e experiência. Precisamente os traços que, tanto quanto peitos em riste e peles lisas, fascinam os homens, e que paradoxalmente nos fizeram avançar. Se não fosse por eles, não teríamos forças ou coragem para prestar vestibular, tirar carteira de motorista, situações de estresse e teste que se tornam muito mais difíceis depois que viramos o Cabo dos Trinta Anos.&lt;br /&gt;
	É que me recordo um pouco de mim quando as vejo, embora eu nunca tenha sido exatamente modelo de entusiasmo e alegria. Hoje me acomete, porém, um cansaço,  sensação, como na canção do Chico de que “já conheço os passos dessa estrada, sei que não vai dar em nada, seus segredos sei de cor”. Uma certeza de que as pedras do caminho já me são familiares, de que as venho recolhendo num embornal de frustrações e ressentimentos. Será isso o que chamam de amadurecer? Amarelecer. Amarelecemos. O que fazer para enverdecer novamente?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;img src=&quot;http://almofariz.blogspirit.com/media/02/00/8bd0f2f131082fe5cd747187e73d4dc0.jpg&quot; id=&quot;media-115413&quot; title=&quot;&quot; alt=&quot;807b64326316e86a1f636105f33439e1.jpg&quot; style=&quot;border-width: 0; float: left; margin: 0.2em 1.4em 0.7em 0;&quot; /&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;img src=&quot;http://almofariz.blogspirit.com/media/01/00/842bdf75d95baff080eaef71dd72a70e.jpg&quot; id=&quot;media-115414&quot; title=&quot;&quot; alt=&quot;abc858d75ab7c808be8b267ab0434daf.jpg&quot; style=&quot;border-width: 0; float: left; margin: 0.2em 1.4em 0.7em 0;&quot; /&gt; </content> </entry>  <entry> <author> <name>Cássia Fernandes</name> <uri>http://almofariz.blogspirit.com/about.html</uri> </author> <title>O capeta 9.316</title> <link rel="alternate" type="text/html" href="http://almofariz.blogspirit.com/archive/2007/12/13/o-capeta-9-316.html" />  <id>tag:almofariz.blogspirit.com,2007-12-13:1442943</id> <updated>2007-12-13T15:14:15-04:00</updated> <published>2007-12-13T15:14:15-04:00</published>   <summary>   
 
Em situações cômicas e às vezes até trágicas se envolvem pessoas,...</summary> <content type="html" xml:base="http://almofariz.blogspirit.com/"> &lt;img src=&quot;http://almofariz.blogspirit.com/media/00/01/9e65975fea821cac5869ec209a11bd78.jpg&quot; id=&quot;media-100842&quot; title=&quot;&quot; alt=&quot;6e8175e1915eeb4c8bbded84abe424bf.jpg&quot; style=&quot;border-width: 0; float: left; margin: 0.2em 1.4em 0.7em 0;&quot; /&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em situações cômicas e às vezes até trágicas se envolvem pessoas, arrastadas pelo aparentemente inofensivo pecado da vaidade, que, aliás, já não se considera mais pecado. Passou a ser virtude, ainda quando extrema. O que importa é aparentar sucesso, juventude e beleza a qualquer pejo.&lt;br /&gt;
	Há coleções de episódios em que ela semeou atrás de si rastro de vexame e constrangimento. Casos que me contaram ou que ouvi sem me narrarem. Como daquela mulher madura, muito juvenil para sua meia idade. Tingia com zelo os fios brancos dos cabelos, mas os de baixo esbranquiçavam-se sem atender a seus apelos. &lt;br /&gt;
	Ao sair com um rapaz bem mais jovem, não quis delatar-se. Usou rímel preto sob a lingerie negra. Ele se dedicou a satisfazê-la. Mas quando voltou da viagem aos úmidos trópicos, exibia bigodinho suspeito. Receosa de que ele se olhasse no espelho, ela passou o resto da noite a acariciá-lo com algodões embebidos em loções de limpeza. &lt;br /&gt;
	Houve também o caso daquela outra moça, que saiu de casa orgulhosa com o novo par de olhos azul-turquesa. Ignorando o aspecto vampiresco que as lentes de contato conferem, foi ao principal ponto de encontro da pequena cidade: a agência bancária. Quando entrou, no pretexto de pagar a conta de água, a súbita mudança de cores chamou a atenção de todos, inclusive de um velhinho humilde que exclamou bem alto: ‘Uai! Aquela mulher ali ficou cega?”. A moça voltou roxa de vergonha para casa.&lt;br /&gt;
	O fato de mencionar casos envolvendo apenas mulheres não faça crer, no entanto, que a vaidade seja cultuada apenas pelo feminino sexo. Os homens de cabelos cor acaju estão aí para atestá-lo. E também esses rapagões bombados que – dizem as más línguas – sacrificam até a virilidade para poder andar daquela forma estranha, com braços e pernas abertas por causa dos músculos hipertrofiados. &lt;br /&gt;
	E não há apenas a vaidade de exibir um belo corpo. Há a vaidade do dinheiro e do poder, essas das mais feias de doer. Que demonstração patética não foi a do senador ao agarrar-se ao osso presidencial? E os políticos ilustres que dão chiliques nas solenidades, quando não são citados ou não são reservados assentos para seus traseiros dourados?  E os que fazem financiamentos a perder de vista só para ostentar por aí um daqueles carrões invejáveis?&lt;br /&gt;
	Ainda que a vaidade não seja considerada mais pecado, que todos nós tenhamos erguido pra ela um altar no meio do quarto, sempre me lembro de um livrinho que li na infância, e que retratava a vaidade como uma capetinha de somenos importância. Era “O Capeta 9.316”, escrito por Douglas Avanço. A história de um coisa ruim inferior na ordem dos tinhosos e que foi enviado à Terra para fazer com que todos pecassem e travassem uma batalha interminável de egos insaciáveis. Foi fácil para o capeta da vaidade convencer o urubu de que era o rei dos animais, o mais belo e importante, posto que limpava o mundo de tudo quanto é sujo e restante. E assim a vaidade nos convence de que somos os tais. Quanto menos se pressente, estamos nos achando os maiorais. E deixando para trás ridículos, dívidas, desgostos e o gostoso perfume de enxofre. </content> </entry>  <entry> <author> <name>Cássia Fernandes</name> <uri>http://almofariz.blogspirit.com/about.html</uri> </author> <title>Já pegou seu brinde?</title> <link rel="alternate" type="text/html" href="http://almofariz.blogspirit.com/archive/2007/12/01/já-pegou-seu-brinde.html" />  <id>tag:almofariz.blogspirit.com,2007-12-01:1433837</id> <updated>2007-12-01T11:52:49-04:00</updated> <published>2007-12-01T11:52:49-04:00</published>   <summary> Você folheia apressadamente o jornal. Ia direto aos classificados procurar o...</summary> <content type="html" xml:base="http://almofariz.blogspirit.com/"> Você folheia apressadamente o jornal. Ia direto aos classificados procurar o anúncio de um melhor emprego. Queria alcançar rapidamente a seção de Esportes para saber a classificação de seu time no campeonato. Desejava ler as notinhas da coluna política.  No virar das páginas, no entanto, o título te chama: já pegou seu brinde?&lt;br /&gt;
	Você pára. Você percebe a foto da cronista. Uma expressão simpática. Dir-se-ia inofensiva e até generosa. Ela pergunta se você já pegou. O que pressupõe que você deveria ter pegado, que outros já pegaram, que está perdendo algo, que está ficando pra trás. Pegue logo. Nunca se deve recusar um brinde. De graça até injeção na testa, até entrar na fila pra tomar cascudo. Num mundo em que se vende tudo, qualquer cadinho de qualquer treco é lucro. E se você vacila e se você não pega, vem aquela sensação recorrente de que a gente está sempre perdendo uma festa para a qual o resto do mundo foi convidado.&lt;br /&gt;
	Então, apanhe essas palavras que te dão. Antes o verbo do que nada. Você está dentro. Você continua lendo. Assim será aceito, incluído, pertencerá a um grupo, dos leitores instruídos, bem informados. &lt;br /&gt;
Engoliu a isca. Se fosse uma vendedora de assinatura de revistas, dessas que abordam pessoas distraídas nos aeroportos, a estas horas, você estaria no papo. Antes de receber o brinde, responderia a um questionário, seus gostos, preferências, cartões de crédito, endereço. De repente, meio tonto, sairia com uma revista debaixo do braço e com um contrato para receber em casa, pelo período de um ano, a revista Criação de Canários – logo você que tem horror à manutenção de pássaros em cativeiro, foi capturado.&lt;br /&gt;
	Não sou vendedora de assinaturas de jornais ou revistas, nem pretendo te vender meu último livro, que sequer foi publicado, mas convém advertir que mesmo na leitura desenvolve-se uma espécie de comércio, velado ou desavergonhado. O escriba, egocêntrico assumido, oferece ao leitor título convidativo, bela embalagem, o mais atraente possível, combinação de palavras que pareçam imprescindíveis – você não poderia continuar seu dia sem isso – e em troca o leitor lhe dá algo de seu tempo, atenção e admiração. &lt;br /&gt;
O problema é que muitas vezes acaba-se comprando não só gato por lebre – o texto não é o que o título promete – e se adquirem idéias nem desejadas. Eis o que se dá quando topa com um jornalista ou escritor que, mostrando toda a sua erudição, não usa o texto senão para elogiar-se e mostrar-se em vitrine. É ele o próprio conteúdo. Admire-me e me ame é a única mensagem.&lt;br /&gt;
Quão freqüentemente, ao final de alguns textos e livros religiosos ou pseudo-filosóficos, que na aparência te oferecem dádivas de reflexão, há o convite para se comparecer a determinada igreja ou associação.  Livros de auto-ajuda que não ajudam senão seus autores a engordar contas e egos, a vender palestras pelo país inteiro. Reportagens com dicas valiosas sobre os cuidados com a pele e logo ali abaixo o endereço de renomado dermatologista.&lt;br /&gt;
 	Eis por que se deve ter cuidado com leituras de qualquer espécie, por mais inofensivas que pareçam. Há sempre transação subjetiva desenvolvendo-se nos textos como na vida, história de intenção por trás da história que nos dão. Um brinde não. Blinde-se. </content> </entry>  <entry> <author> <name>Cássia Fernandes</name> <uri>http://almofariz.blogspirit.com/about.html</uri> </author> <title>BLOGAGENS</title> <link rel="alternate" type="text/html" href="http://almofariz.blogspirit.com/archive/2007/11/13/blogagens.html" />  <id>tag:almofariz.blogspirit.com,2007-11-13:1420742</id> <updated>2007-11-13T17:33:21-04:00</updated> <published>2007-11-13T15:45:00-04:00</published>   <summary>  Enfie esse panfleto... 
....na rima!  
 
Como motorista indignada e...</summary> <content type="html" xml:base="http://almofariz.blogspirit.com/"> &lt;strong&gt;Enfie esse panfleto...&lt;br /&gt;
....na rima!&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como motorista indignada e desassossegada, estou pensando seriamente em criar uma campanha para protestar contra os panfleteiros que agem nos semáforos de Goiânia. Em adesivos para pregar no vidro do carro, pretendo estampar as seguintes palavras: Mantenha meu sossego. Enfie esse panfleto no rego. &lt;br /&gt;
Sim, sei que a rima é pobre, que já caí do salto, que os panfleteiros temem por seus empregos e que por esse motivo mesmo seus patrões já lançaram campanha em protesto à decisão da Prefeitura de proibir sua atuação nos semáforos.  Nas camisetas deles, pretas de indignação e luto, estamparam: Aceite esse panfleto. Mantenha meu emprego.&lt;br /&gt;
	Então, somos nós os responsáveis por manter seus empregos? Esse argumento, oportunista e falacioso, é usado todo o tempo, para justificar toda sorte de poluição e agressão à cidade, todo tipo de contravenção e crime. Se a gente der ouvido e razão a ele, todas as ruas irão se transformar em camelódromos, afinal todo mundo precisa trabalhar, ganhar seu dinheiro. É melhor trabalhar no mercado informal do que roubar. Quer dizer, é melhor roubar do que matar.  Seguindo essa lógica, a gente deve pensar também na situação do ladrão, que também precisa garantir seu feijão. E no traficante, que também garante o leite das crianças. Se a gente raciocinar por aí, deve tudo permitir e nada proibir.&lt;br /&gt;
	Alguém se lembra da polêmica envolvendo os pintores de muros? Há alguns anos, o vereador Clécio Alves decidiu criar uma lei proibindo o uso de muros para publicidade. Seus próprios colegas, legislando em causa própria e a favor das próprias campanhas políticas, se revoltaram, em nome da prejudicada categoria dos pintores.  E adivinhem no que deu? Basta dar uma olhadinha na cidade.&lt;br /&gt;
	Algo me diz, portanto, que essa medida tomada pela Prefeitura também não vai dar em nada. O que tenho visto é que outros motoristas, não tão desassossegados quanto eu, continuam aceitando os panfletos, entre solidários e enfastiados. E Goiânia vai continuar sendo uma verdadeira feira, em que todos tentam gritar mais alto. Nos muros, nos out-doors espalhados por toda parte, nas fachadas berrantes das lojas. Ai, Curitiba, e você vai se tornando a cada dia um sonho mais distante...&lt;br /&gt;
	 Não importa. Eu, por mim, burguesa quixotescamente solitária, vou continuar fechando ostensivamente a janela do carro, para usufruir da frescura do ar condicionado, ainda que seja considerada por isso uma madame afrescalhada – em país subdesenvolvido, o mínimo conforto é luxo. Para me defender dos inofensivos moradores ou crianças em situações de rua, que humildemente nos pedem a bolsa, o celular ou a vida, com um caco de vidro no nosso pescoço. Para não transformar meu carro num lixão sobre rodas. (Era o que acontecia antes, já que, penalizada com o solão escaldante lá fora ou farta de dizer não umas vinte vezes consecutivas, eu recolhia toda a papelada e não a atirava em seguida pela janela. Ao acolher toda aquela massa de celulose, eu padecia de angustiosa contradição, pois não somos nós mesmos que falamos em preservação do meio ambiente, em desenvolver hábitos de consumo mais conscientes?).&lt;br /&gt;
	E sim, vou ignorar solenemente os simpáticos panfleteiros que quase esmurram o vidro, e saem fazendo muxoxos e dizendo palavrões, afinal nós, a elite motorizada, com nossos carros populares financiados em 36 suaves prestações, somos os grandes culpados pela pobreza, desemprego, injustiça social. Os donos dessas empresas que distribuem os panfletos e que mandaram fabricar as camisetas, os anunciantes, entre eles as construtoras, com seus miraculosos lançamentos imobiliários, as grandes redes de supermercado não têm absolutamente nada a ver com isso. </content> </entry>  <entry> <author> <name>Cássia Fernandes</name> <uri>http://almofariz.blogspirit.com/about.html</uri> </author> <title>Crônica contra Cronos</title> <link rel="alternate" type="text/html" href="http://almofariz.blogspirit.com/archive/2007/11/09/cronica-contra-contra-cronos.html" />  <id>tag:almofariz.blogspirit.com,2007-11-09:1417717</id> <updated>2007-11-09T15:00:04-04:00</updated> <published>2007-11-09T10:10:00-04:00</published>   <summary>   
 
Incrível como muitas pessoas enchem a boca para falar que vivem sem...</summary> <content type="html" xml:base="http://almofariz.blogspirit.com/"> &lt;img src=&quot;http://almofariz.blogspirit.com/media/00/02/f03f80bfbab915a390b3e2d8e12a3b81.jpg&quot; id=&quot;media-79902&quot; title=&quot;&quot; alt=&quot;08aa5e4add9278087abeed75d33918bf.jpg&quot; style=&quot;border-width: 0; float: left; margin: 0.2em 1.4em 0.7em 0;&quot; /&gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Incrível como muitas pessoas enchem a boca para falar que vivem sem tempo, que ele não sobra, que estão sempre atarefadas, que trabalham demais.  Que não dá. Que voa e é dinheiro. Como doentes que se orgulham da doença. Alto lá! Doença, não! A justificativa da falta de tempo é utilizada até para vender analgésico. No comercial, a atriz se divide em duas, para dar conta de tudo, afinal, não se pode perder tempo com dor de cabeça. Não se pode doer ou adoecer. Não se pode perder.&lt;br /&gt;
 Há, claro, quem realmente precise trabalhar demais em um ou vários empregos, para sustentar família numerosa, sobreviver com dignidade. Existem de fato empregos que sugam, famílias que exigem, gente sobrecarregada de tarefas: trabalhar fora, cuidar da casa,  dos filhos; levá-los à escola, à natação, ao inglês; freqüentar cursos, de reciclagem, especialização, pós-graduação, mestrado, pós-doutorado, línguas, oratória,  pois é preciso acompanhar o ritmo vertiginoso com que o mercado se transforma, exige, não transige! Cuidar da boa forma. Assistir aos telejornais, aos lançamentos cinematográficos, ler as novidades do mercado editorial. Ufa! Uma lista imensa de afazeres para quem quer ser saudável, magro, bonito, bem-sucedido, antenado.&lt;br /&gt;
Não me refiro tanto às pessoas que, por ambição, dificuldades financeiras ou excesso de demandas, se esfalfam de trabalhar. Refiro-me antes àquelas que se deixam arrastar, inconscientes, por esse turbilhão de ânsias e ansiedades, que as conduz para o abismo da exaustão ou depressão. Às que se entregam ao trabalho e à vida como animal de tração ou em sacrifício. Automaticamente, atribuem à insuficiência das horas a culpa por todo infortúnio, por não ler bons livros, não freqüentar os amigos, não estar com os filhos.&lt;br /&gt;
Muitas vezes, no trânsito, flagro-me acelerando, presa de pressa. Aí, indago: corro por quê? Em geral, isso se dá, não porque o tempo me falte, mas porque o distribuo mal, de tal forma que preciso correr porque me atrasei na saída para o trabalho. Diante disso, deixei de usá-lo como desculpa para atrasos e adiamentos. Se não realizei até hoje projeto antigo, não finalizei um livro iniciado, não é por crueldades de relógios, mas porque pernas e humores e idéias se embaraçam nelas mesmas. Porque enveredo por túneis, porque me abandono a meus próprios precipícios de confusão e tédio.&lt;br /&gt;
 Aos que buzinam e que frenéticos buscam brechas de ultrapassagem, também pergunto: ele lhes falta? Ou terão como eu sido reprovados nessa matemática? Ou, sonâmbulos, se deixaram envolver pelas tantas vozes que gritam nas multimídias: seja assim, compre isso, faça aquilo? Muitos são workaholics involuntários, dopados de desejos que não lhes pertencem, embebedados de avidez. &lt;br /&gt;
Talvez lhes sejam necessários um pequeno estalo, um carro abalroado, o prenúncio de um infarto, de uma crise de estresse, a receita de um ansiolítico prescrita pelo psiquiatra, a carta de despedida súbita da pessoa amada, para que acordem de repente para o tempo que realmente interessa: o de dentro, o tempo do ser que é, que não tem pressa, de amar e se lapidar. Esse que não se valoriza e se desperdiça com prodigalidade. Oxalá não seja tarde. Que não esteja vazando pela ampulheta o último grão de areia. Pois só há uma hora em que o tempo realmente nos falta e importa, quando a “indesejada das gentes” bate à porta. </content> </entry>  </feed>