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<title>Almofariz - por Cássia Fernandes</title>
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<subtitle>Um empório de especiarias raras ou um blog para cama, mesa, poesia e roupa lavada</subtitle>
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<title>O caso do vestido</title>
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É isso que deveria ter ficado no centro das discussões e não se aquele era ou não um traje adequado para frequentar uma instituição de ensino. Nem que ela estivesse fantasiada de odalisca, que carregasse na cabeça uma melancia, teriam o direito de agir da forma desrespeitosa e desumana como agiram.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;No entanto, esse episódio me fez ter vontade de abordar um assunto: a forma como as brasileiras se vestem e lidam com a sensualidade no seu vestuário. Aquela moça se vestiu como muitas, se não a maioria das mulheres, se veste atualmente, se não para ir ao trabalho ou à escola, para ir a uma festa ou restaurante. Não sou especialista em moda e posso ser imprecisa em minhas observações, mas já há bastante tempo que noto que as brasileiras se vestem de uma forma exageradamente sensual, se comparadas a mulheres de outro países.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Naturalmente, o uso de roupas curtas, justas e decotadas está ligado ao nosso clima tropical, mas a sensualidade não se restringe ao comprimento das saias ou à profundidade dos decotes. De uma forma geral, a moda que predomina no Brasil, que está vitrines, e sobretudo nas ruas, é caracterizada pelo uso de calças justíssimas e de outras peças que exibem e acentuam as curvas do corpo feminino.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Recordo-me, porém, que nem sempre foi assim. Até a década de 90, não se usavam roupas tão coladas ao corpo. Foi mais ou menos nessa época, acredito, que se difundiu o uso do chamado &lt;i&gt;cottom&lt;/i&gt;, tecido coladíssimo ao corpo e outras malhas. E esse novo estilo foi incorporado por todas, não só pelas chamadas mulheres vulgares – distinção que muitos ainda insistem usar – mas também pelas mocinhas de boa família, pelas magras e também pelas gordinhas. É claro que a moda é dinâmica e houve tentativas de se introduzir peças mais largas e discretas no vestuário feminino, mas essa tendência se incorporou de vez ao guarda-roupa da mulher brasileira.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Como a moda não é gratuita e reflete valores e toda uma cultura, o que questiono é o que está por trás desse vestir sensual. Nas últimas décadas, houve uma supervalorização da sensualidade na identidade da mulher. Ser gostosa, ser sensual é ter poder, é condição para ser bem aceita, bem-sucedida e para encontrar o par amoroso ideal. Hoje, já não basta que a mulher tenha qualidades, como beleza, inteligência, educação, ela deve ser na sociedade uma dama, mas um avesso fogoso na cama. Deve despertar olhares, desejos, insinuar suas qualidades sexuais na forma de vestir, mas ela mesma deve frear seus próprios desejos, sob pena de parecer fácil, vulgar.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Mesmo as moças para namorar e casar – distinção que parece anacrônica, mas que ainda se ouve muito por aí – têm o costume de realizar, não mais o chá de panela, mas o chá de lingerie, para que ganhem das amigas peças sensuais que possam exibir diante de seus sortudos maridos. A mulher, no entanto, diante de tantas expectativas contraditórias em relação a sua figura, fica confusa. Se a prostituta e a mulher casadoira se vestem da mesma maneira, como dizer ao mundo “o que sou”. É preciso despertar a cobiça no olhar, mas é preciso ter recato? Alguma está fora do lugar. Será a moça que vestiu o vestido no lugar errado? Ou será essa moralidade dúbia, falsa, que coloca a mulher exposta como uma peça de carne num açougue e ao mesmo tempo lhe diz “não ouse”?&lt;/p&gt;
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<name>Cássia Fernandes</name>
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<title>Minhas mãos</title>
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E de repente, só nesse dia e momento emergiu à luz da consciência aquela sensação de ausência, aquela “saudade que dói latejada”, “que é assim como um fisgada no membro que já perdi”, como canta Chico Buarque.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;De repente, ao arranjar os papéis, ao tentar, com toda a minha falta de jeito e de coordenação motora, impor-lhes e me oferecer alguma ordem, percebo claramente que sinto falta das minhas mãos, das mãos que já que não tenho, daquelas que migraram para tão longe, para outro continente. Eram elas que organizavam minha vida caótica, que substituíam as minhas quatro patas de Sagitário, que reuniam amontoados de celulose em delicadas pastas de papel de carta. Era ela.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Vera era minhas mãos. Desde os tempos da faculdade de Letras, era ela que digitava meus trabalhos, dando-lhes dignidade, um aspecto decente às minhas garatujas despejadas em folhas de papel almaço amassado que certamente aterrorizavam os professores. Quando comecei a desenvolver o projeto dos &lt;i&gt;Escritos para uso pessoal e doméstico&lt;/i&gt;, poemas impressos em caixas, foi ela quem fez, com sua habilidade, paciência e delicadeza, os protótipos das primeiras caixinhas. Os meus projetos eram também seus projetos. Ela parecia que sonhava meus sonhos e continuava ainda a sonhá-los quando para mim eles tinham se convertido em decepção ou pesadelo.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Como pode alguém ser assim de uma generosidade tão sobre-humana, a ponto de se tornar as mãos de uma pessoa? Uma tentação para nosso egoísmo e egocentrismo. Pois eu ousei dizer a ela que gostaria de ganhar dinheiro bastante para contratá-la. Que ela se ocupasse exclusivamente de todas as questões práticas de minha existência. Que não só providenciasse para que as contas fossem pagas nas datas certas, mas para que os papéis parassem de voar e desaparecer com numa casa de bruxas. Para que ela fosse a governanta não de minha casa, mas de minha vida e emoções desgovernadas.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Ironia: uma vez Vera ficou com as mãos paralisadas, como se sofresse subitamente de uma artrite violenta – mais psicológica que física, creio. Decerto foi o peso das tantas responsabilidades que assumia, o fardo da sua compulsão por cuidar. Ironia maior ainda: hoje Vera é as mãos de outras pessoas. Desde que ela partiu para a distante Londres, tive que aprender a fazer coisas com minhas patas, a torná-las minimamente hábeis. E até que não tenho me saído tão mal. É verdade que o aprendizado tem sido marcado por adiamentos, como a tão demorada aquisição da pasta com o mesmo modelo que ela utilizava.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Talvez eu não quisesse encarar a tanta falta que ela me faz. Nunca tive com ninguém mais tanta afinidade de espírito, uma amizade tão profunda e tão antiga, que, sim, parece que remonta a outras vidas. Considero-me sim verdadeiramente afortunada por tê-la tido, durante algum tempo ao menos, como parte inseparável de mim. Vera, pela sua sensibilidade, altruísmo, é um daqueles personagens que merecem ser anunciados nos jornais e cantados nos livros, como um representante legítimo, um verdadeiro modelo dos grandes e verdadeiros amigos.&lt;/p&gt;
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<name>Cássia Fernandes</name>
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<title>Perguntas de quem olha sem ver</title>
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Eis alguns trechos de &lt;i&gt;Perguntas de um operário que lê&lt;/i&gt;, de Bertoldt Brecht: “Quem construiu Tebas de sete portas?/ Nos livros estão os nomes dos reis./ Foram os reis que arrastaram os blocos de pedra?/&lt;br /&gt; E as várias vezes destruída Babilônia –/ Quem é que tantas vezes a reconstruiu?/ &lt;span style=&quot;color: #231f20;&quot;&gt;(...)&lt;/span&gt; Para onde foram os pedreiros na noite em que ficou pronta a Mu­ralha da China?&lt;span style=&quot;color: #231f20;&quot;&gt;/ (...)&lt;/span&gt; O jovem Alexandre conquistou a Índia./ Ele sozinho?/ César bateu os Gálios./ Não teria consigo um cozinheiro ao menos?/ (...) Cada dez anos um Grande Homem. / Quem pagou as despesas?/ Tantos relatos/ Tantas perguntas.”&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Esse texto era utilizado pelos professores para nos introduzir na perturbadora história da exploração do homem pelo homem, na história de uma História escrita pelos ricos e vencedores. Percebo que se naquela época ele me inquietava e me fazia pensar na multidão explorada e esquecida, como uma abstração sem rosto, hoje me evoca algo mais próximo e real.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Ao relê-lo, fico pensando nas tantas pessoas que nos servem no dia a dia e de que não sabemos absolutamente nada. O que sabemos, por exemplo, sobre o porteiro do prédio onde vivemos? Onde mora? Será um lugar agradável ou insalubre? Será ele um solitário ou tem uma numerosa família? E os garçons dos bares ou restaurantes que frequentamos, aos quais tantas vezes tratamos com impaciência ou até arrogância?&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;É claro que nas grandes cidades as relações são naturalmente mais impessoais do que nas pequenas, onde as pessoas, em maior ou menor grau, sempre sabem das outras, conhecendo detalhes da árvore genealógica, tragédias e últimas peripécias. Mas por aqui a indiferença, e essa relação impessoal e descomprometida, disfarçada tantas vezes de profissionalismo, chegam a extremos um tanto absurdos.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Há algum tempo um amigo meu disse que estava à procura de uma nova diarista. É que a moça que cuidava de sua casa havia anos avisou de repente que não poderia mais trabalhar para ele.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;“Mas o que foi, Odete?”&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;“Não é nada contra o senhor, não. É que semana que vem vou ganhar neném.”&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;“Como assim? Eu nem sabia que você estava grávida.”&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;E de fato ele nada sabia, afinal, raramente a via. Ela chegava assim que ele saía para o trabalho. Quando ele voltava, ou ela já tinha ido embora ou estava indo. Ela era meio gordinha, por isso ele não notou quando e quanto lhe cresceu a barriga.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Mas talvez&amp;nbsp; a verdade mais profunda seja que ele olhava pra ela, mas não a via, como nós não vemos aqueles que nos cercam e nos servem. Podemos culpar a falta de tempo pelo fato de não sabermos nada sobre a vida dos que trabalham conosco, dos que cuidam da limpeza de nossas casas, da higiene e alimentação de nossos filhos. Mas muita vezes o que nos falta mesmo é interesse, curiosidade legítima, disposição para ouvir o que têm para nos contar aqueles que de fato erguem e mantêm cidades, países e impérios.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Reivindicamos mais igualdade social, votamos em candidatos que defendem a inclusão social, valorizamos empresas que praticam responsabilidade social, mas simplesmente ignoramos quem tão ardorosamente dizemos defender.&amp;nbsp; &lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt; &lt;w:WordDocument&gt; &lt;w:View&gt;Normal&lt;/w:View&gt; &lt;w:Zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt; &lt;w:HyphenationZone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt; &lt;w:PunctuationKerning /&gt; &lt;w:ValidateAgainstSchemas /&gt; &lt;w:SaveIfXMLInvalid&gt;false&lt;/w:SaveIfXMLInvalid&gt; &lt;w:IgnoreMixedContent&gt;false&lt;/w:IgnoreMixedContent&gt; &lt;w:AlwaysShowPlaceholderText&gt;false&lt;/w:AlwaysShowPlaceholderText&gt; &lt;w:Compatibility&gt; &lt;w:BreakWrappedTables /&gt; &lt;w:SnapToGridInCell /&gt; &lt;w:WrapTextWithPunct /&gt; &lt;w:UseAsianBreakRules /&gt; &lt;w:DontGrowAutofit /&gt; &lt;/w:Compatibility&gt; &lt;w:BrowserLevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt; &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt; &lt;w:LatentStyles DefLockedState=&quot;false&quot; LatentStyleCount=&quot;156&quot;&gt; &lt;/w:LatentStyles&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt; &lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;mce:style&gt;&lt;!    /* Style Definitions */  table.MsoNormalTable         {mso-style-name:&quot;Tabela normal&quot;;         mso-tstyle-rowband-size:0;         mso-tstyle-colband-size:0;         mso-style-noshow:yes;         mso-style-parent:&quot;&quot;;         mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt;         mso-para-margin:0cm;         mso-para-margin-bottom:.0001pt;         mso-pagination:widow-orphan;         font-size:10.0pt;         font-family:&quot;Times New Roman&quot;;         mso-ansi-language:#0400;         mso-fareast-language:#0400;         mso-bidi-language:#0400;}  --&gt; &lt;!--[endif]--&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Simplesmente não enxergamos aqueles que abrem as portas pelas quais entramos, que preparam a comida que comemos, que sustentam o teto sob o qual nos abrigamos. A quantos passos estamos, assim, de ser eloquentes democratas públicos e secretos déspotas domésticos?&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&amp;nbsp;&lt;/p&gt;
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<name>Cássia Fernandes</name>
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<title>FOMOS DESFEITOS UM PELO OUTRO</title>
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<updated>2009-09-02T21:39:13-04:00</updated>
<published>2009-09-02T21:13:00-04:00</published>
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Ricardo desejava realmente aventura, no que a palavra significa de risco, adrenalina. Já Leila dava outro sentido ao mesmo termo. Fugia de aventuras, ou melhor, queria um compromisso sério. Insatisfeita com a pouca oferta no mercado recessivo do amor, leu em alguma revista feminina ou ouviu de uma amiga, dessas efusivas que nunca ficam sem namorado – para quem está sempre “it´s raining men, aleluia!” – , que, dadas as extremas condições de competitividade, era possível e necessário cavar seu homem no fundo das cavernas, pescá-lo na profundidade dos rios, laçá-lo no alto das árvores, que uma forma eficiente de conhecer exemplares interessantes da espécie era dedicar-se a um tipo qualquer de hobby, a uma atividade em que os homens são maioria.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;Foi assim que Leila se inscreveu em curso de mergulho. A primeira experiência seria mergulho em água doce. Embarcou com um grupo previamente organizado por uma agência de turismo para um lugar paradisíaco onde iria acampar, caminhar, por em prática as habilidades recém-adquiridas. Ali estava Ricardo, estressado com a vida nas grandes cidades, de tal forma que todos os anos incluía em seu roteiro de viagens o tal do contato direto com a natureza.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify; text-indent: 35.4pt;&quot;&gt;Durante toda a viagem, Leila falou com entusiasmo da nova experiência, mostrou-se interessadíssima quando ele contou de suas aventuras anteriores, do estilo de vida saudável de Ricardo, que só consumia produtos naturais,&amp;nbsp; não fumava, não bebia álcool, exceto vinho de vez em quando, de boa procedência. Ele apreciou também a aparência natural de Leila, suas batas soltas, seus cabelos longos e cacheados, sem tinturas e alisamentos artificiais tão usados por suas colegas de trabalho, engessadas com quilos de maquiagem e terninhos estreitos e opressores.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Embora não fosse adepta do visual cara lavada e acendesse um cigarro na brasa do outro, Leila bem que considerava a possibilidade de adotar um estilo de vida mais simples, com hábitos mais saudáveis e menos produtos químicos na pele e nos cabelos. Embora ele não apreciasse muito cerveja ou comidas gordurosas, eventualmente poderia acompanhá-la nos bares, para os encontros regulares com os amigos, na picanha e na lasanha dos sábados e domingos.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Quando retornaram à cidade, estavam profundamente enredados no espírito e na pele um do outro. Todos os finais de semana viajavam para algum lugar próximo, frequentavam cachoeiras, trilhas e quanto mais houvesse de natural e campestre. Casaram-se após seis meses de namoro.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;O primeiro ano de casamento foi de afinação perfeita. Mas Leila, que não vivia sem tinturas e escovas alisantes para os fios, confessou que se aborrecia com aquelas viagens todos os finais de semana. Revelou a vontade de ficar na cidade mesmo. Falou de seu aborrecimento, que não suportava a combinação nefasta de sol, mosquitos e água, que estragava sua pele e arrepiava sua bem cuidada cabeleira. Ricardo, que neste meio tempo, acompanhando o cardápio da mulher, engordara e ganhara uma saliente barriguinha de chope, aceitou o fim das viagens, desde que ela abandonasse o cigarro e portanto as farras com os amigos. Passaram a permanecer os finais de semana em casa, quietos, ela suspirando uma fumaça invisível, ele escalando garrafas de uísque. Haviam assinado o contrato renunciando a si mesmos.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Esta foi a “crônica de um amor louco”. “Foram desfeitos um pelo outro”. Frases poéticas que tomei emprestadas ao poeta Marcos Caiado. Apenas o início de uma história fictícia ou um desfecho que se repete todos os dias.&lt;/p&gt;
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<name>Cássia Fernandes</name>
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<title>Viver não é tirar fotografia</title>
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<updated>2009-08-07T18:00:01-04:00</updated>
<published>2009-08-07T17:58:00-04:00</published>
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E lá vamos nós, hipnotizados, gravando e fotografando tudo e qualquer coisa que não se mexa ou que viva.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Em algumas das últimas cerimônias de casamento para as quais fui convidada, saí sem a oportunidade de cumprimentar os recém-casados. Eram festas grandes, com muitos convidados. E os noivos, antes de percorrer mesa por mesa para receber os cumprimentos, e posar para fotos e filmagens com cada um dos amigos e familiares, ficaram muito tempo, registrando sua felicidade presente para o futuro álbum. Quando chegaram à minha mesa – se chegaram – eu já tinha partido, por alguma outra razão ou por cansaço.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Descortesia a minha, é certo, mas falta uma boa dose de bom senso nas equipes de cerimonial que organizam casamentos e outros eventos similares, e – claro – nas pessoas que contratam esses serviços. A preocupação em registrar os bons momentos se revela exacerbada. O que é tão bom deve ser relembrado, mas precisa sobretudo ser apreciado. É agradável rever tudo depois na TV ou no álbum, as coisas e pessoas como aparecem, mas não se pode deixar de viver a vida enquanto ela acontece.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Em cada época inventa-se uma nova moda. Há algum tempo, era praxe fotografar e filmar apenas o momento da cerimônia e a recepção para os convidados. Hoje, há a prática não só de se tirar fotos em estúdios ou espaços reservados para os noivos antes da cerimônia, como de se registrar até a sessão transformação, o ritual de preparação da noiva, quando ela é maquiada e vestida, numa espécie de &lt;i&gt;making off&lt;/i&gt; da própria vida.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Isso não ocorre apenas nos grandes eventos, mas também nas pequenas festas, nos aniversários infantis, nos encontros descontraídos entre amigos. Sempre há alguém pronto a sacar seu celular ou câmara digital. Muitas vezes, lá se vai, nessa pausa para as fotos, a naturalidade, a alegria legítima, pois quase todos nós ficamos preocupados em sair bem na fita, em sorrir, em dizer “X”, em olhar o passarinho, afinal, no dia seguinte, estaremos nas páginas de relacionamento na internet, em verdadeiras vitrines de felicidade e diversão.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Não é muito diferente nas viagens. Quem já viu um grupo de japoneses fazendo seus passeios turísticos não pode deixar de achar engraçado. Todos munidos de suas câmeras que disparam a cada monumento ou passo. Não temos nos comportado de modo muito diferente. Eu, particularmente, adoro uma boa câmera digital e tantas vezes me flagro perdendo o contentamento do presente, para congelá-lo depois, não no papel, mas na tela do computador – a gente já quase não imprime as fotos digitais. Em vez de simplesmente apreciar a paisagem, lá vamos nós tentando nos apropriar da imagem que se desvanece e só na emoção permanece.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Há um ditado popular que versa que o melhor da festa é esperar por ela. Hoje parece que o melhor da festa é relembrá-la, porque o lembrado, afinal, a gente reinventa ao nosso agrado. A gente vai assim substituindo a própria vida, fazendo pose, escolhendo o ângulo, o lugar mais apropriado, a luz, o ricto da boca, quando o principal já passou, para muito além do alcance da lente, na escuridão em que dorme o que se sente. Fotografias e filmagens eternizam situações memoráveis, mas retratam principalmente nossa vontade – coitada! – de segurar, de reter. E de reescrever ao rever e reviver.&lt;/p&gt;
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<name>Cássia Fernandes</name>
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<title>Agora, depois, além</title>
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<updated>2009-07-22T21:34:57-04:00</updated>
<published>2009-07-22T21:25:00-04:00</published>
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Quanto menos desperdício de dentes rangentes, intrigas e gemidos. Como costumam dizer os espíritas, se pudéssemos perceber como é pequena uma existência humana em face da eternidade que nos fita, ou mesmo como passam rapidamente sofrimentos, meses, anos, diante da enormidade de uma vida.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Leonel amou Lígia no clímax adolescência, secreções e intumescências. Prometeram-se futuro dourado, sem saber que o futuro é só um horizonte escuro, iluminado lá no fundo, comumente, por uma luz surpreendente, com um desenho inesperado. Batizaram os filhos que sequer tinham nascido. O primogênito teria o nome de Ênio. Mas Lígia foi estudar em outra cidade, depois em outro continente e assim se perderam, em espaço, desejo e tempo.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Como cantava Drummond em sua Quadrilha: “João amava Teresa que amava Raimundo/ que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili/que não amava ninguém. /João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, / Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,/ Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes/ que não tinha entrado na história.”&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Leonel se casou com Márcia, que caiu na história de paraquedas pouco mais tarde. Batizaram de Ênio seu primeiro filho. Lígia não se fez de rogada, também deu esse nome ao seu segundo rebento, fruto do casamento com um holandês com que vive na Dinamarca.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Só o tempo nos dá essa lucidez ou sabedoria, ou senso triste de realidade. Quando muito jovens, somos por demais líricos ou dramáticos. A experiência vai nos amaciando em épicos. Achamos que o primeiro amor é o maior, o único, e o último e definitivo. Mas conforme a fila vai andando – e ela anda inexoravelmente –, as folhas das árvores a cair e se repor em sucessivos, mas não permanentes outonos, notamos que o maior amor é o último mesmo, que enquanto estejamos vivos, podemos ser surpreendidos pelo inopinado.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Madalena foi a primeira namoradinha do pai de Ricardo. O namorico não deu em nada. Depois amou o filho de modo desregrado. A família se opôs ao romance, escandalizada, como se visse ali algo de incestuoso, para além da diferença de idade. Ricardo se casou com uma moça precocemente grávida. Teve um menino: Rodrigo. E Madalena, conservando todo o frescor e graça , como se só de amor e formol se alimentasse, foi também o alvo do grande amor de Rodrigo.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Novo escândalo na família. Lá vinha aquela devoradora antiga. Gerações por sua cama passariam? Mas o inesperado os esperava na esquina: Madalena e Rodrigo geraram um filho. Anos passados, Robertinho é a maior alegria do avô e do bisavô, antigos e esquecidos namorados. Quem se lembra mais daquilo? As paixões se apaziguaram nas dobras rugosas da carne. Todas as desavenças vividas parecem hoje tão sem sentido. Mas se naquela época alguém vindo do futuro lhes narrasse a cena de todos sentados, pacíficos, à mesa para o almoço de domingo, chamar-lhe-iam alienado.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Pode ocorrer que um dia, os dois Ênios, filhos de amores desencontrados, venham defrontar-se disputando a mesma mulher, ou se tornem cunhados, ou companheiros apaixonados. Pode ser que essa história não tenha assim um desfecho novelesco, que não se esbarrem jamais nesse mundo imenso ou tão estreito quanto um beco. Tudo pode ser. Basta ver o tempo passar para crer.&lt;/p&gt;
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<name>Cássia Fernandes</name>
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<title>Os canhotos desse mundo</title>
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<updated>2009-07-16T00:46:09-04:00</updated>
<published>2009-07-16T00:46:09-04:00</published>
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Ou pior: professores, munidos de palmatória e outras crueldades vexatórias, amarravam a mão do coitado, porque o canhoto, o canhestro, o sinistro era visto como demoníaco, o gesto como a manifestação do maldito. Os costumes mudaram, a ciência iluminou e mostrou que os canhotos são seres até mais hábeis, porque um outro hemisfério do cérebro comanda os seus hábitos.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Mas até hoje continuamos maltratando e castigando os canhotos desse mundo. É o que fazemos quando não aceitamos os diferentes, quando nós mesmos não nos respeitamos em nossas inclinações e vocações, quando nos obrigamos a ser algo que não somos, a desempenhar funções para as quais não temos talento ou pior até, aquelas que detestamos absolutamente. Ocorreu quando nossos pais quiseram que nós, os filhos, fôssemos iguais: todos médicos ou engenheiros, ou quaisquer profissões que dariam respeito ou dinheiro. E se seguimos seus apelos. Ocorre quando fazemos o mesmo aos nossos filhos, tentamos uniformizá-los, ignorando suas idiossincrasias.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Não sou canhota por biologia. Mas costumo dizer, a exemplo do que ouvi um dia da conhecida fotógrafa Rosary Esteves, que tenho duas mãos esquerdas. Ela assim se definia. E decerto, para compensar tal “canhotismo” duplo, desenvolveu grandes e sensíveis olhos para a beleza. Também assim me considero, com o agravante de que sou destra. Inábil para qualquer atividade manual, sobretudo as mais delicadas. Portanto, um tanto frustrada, ainda mais porque o “canhotismo” no sentido completo não se refere apenas às mãos, mas principalmente aos modos de estar no mundo. Como canhotos, entendam-se desajeitados, desastrados, desengonçados.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Exageros à parte, sou uma destra que escreve como canhota, a mão torta de alfabetizada em escola de roça. Ouvi muitas vezes os comentários jocosos de minha mãe e irmã quando ia servir a comida: lá vem a pá mecânica. E até as queixas dos alunos, quando fui professora, e riscava com minha péssima letra no quadro negro. Eu apagava parte do que escrevia com minha própria palma. Sintomático? Como se dissesse: esqueçam tudo o que escrevo. Ou não aprendam nada do que ensino. Mais grave ainda.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Perdoei-os e procuro me perdoar todos os dias porque encontrei abrigo ou consolo na poesia. O heterônimo de Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, enrolava os pés publicamente nos tapetes das etiquetas. Carlos Drummond de Andrade foi ser “gauche” na vida. No entanto, se pais ou irmãos já não nos tentam endireitar, ou se tentam, mas perdidos de esperanças, se já estamos calejados ou desenvolvemos providenciais ouvidos moucos, nós mesmos nos encarregamos de agir como os professores cruéis.&lt;/p&gt; &lt;p class=&quot;MsoNormal&quot; style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Ficou ali no nosso inconsciente a obrigação latente de não ser diferente. Nos penitenciamos por não ser aquela pessoa direita, certinha, que faz tudo bonitinho, bem-sucedida, bem ajustada. Cá bem dentro conservamos nossa mão esquerda amarrada, moída, roxa de pancada.&lt;/p&gt; 
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