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15-05-2011

Fervura

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(Ou quando uma mulher dá sopa)

 

O piscar de olhos-cebola fica mais lento.

Os lábios, tomates intumescidos.

Até os músculos da face, alfaces trêmulas.

E nem se fala do que ferve

sob o caldeirão do vestido.

 

 

 

07-05-2011

Já que a culpa e a hora são da mãe

 

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     Inspirada no comentário do professor Lisandro Nogueira no twitter (@lisandron), tive vontade de recomendar um filme sobre a temática  “mãe”, Desenterrei então esse antigo texto, de julho de 2007, que na verdade fala modesta e ligeiramente sobre dois filmes.

Sexo por compaixão e maternidade por egoísmo

     Nesse final de semana, assisti a dois filmes, um espanhol e outro argentino. E não foram exatamente aqueles filmes desesperadamente depressivos que eu, Aline e Paulo costumávamos assistir nos domingos de tédio, para "puxar angústia", como diria Fernando Sabino. Nada que se compare ao absolutamente deprê "Às segundas ao sol", de Fernando León de Aranoa. Nada tão down que me fizesse achar o suicídio uma opção divertida.
     Assisti primeiramente a "Sexo por compaixão", um filme engraçado de Laura Maña, na verdade uma produção da Espanha e do México. A gorduchinha Dolores, uma mulher de generosidade extrema, depois que é abandonada pelo marido Manolo, justamente por seu excesso de generosidade, começa a prestar seus serviços amorosos e generosos aos homens da cidadezinha sem cor e graça.
     Tudo o que ela deseja é pecar, um sentimento que desconhece absolutamente. A cidadezinha, naturalmente, torna-se colorida depois que ela se torna Lolita - efeito do próprio filme, que havia começado em preto e branco. Mas não é esse expediente, até bastante comum no cinema, que lhe confere graça. O encanto está mesmo no desdobramento surpreendente das ações e, claro, no comportamento de Dolores, que entrega seu corpo, não por desejo ou por dinheiro, mas simplesmente por se apiedar das dores dos homens.
     Além do filme de Laura Maña, assisti também a "Roma, um nome de mulher", dirigido por Adolfo Aristarain. A produção argentina e espanhola conta a história de um escritor que está compondo sua biografia, marcada pela figura forte da mãe Roma. Foi aliás o comportamento dessa mulher, eixo da narrativa, o que mais me impressionou, justamente porque, na forma com que educa o filho Joaquin desmistifica um monte de invencionices culturais acerca da maternidade.
     Em um dos diálogos, após, sem que o filho soubesse, Roma ter vendido seu piano para que ele pudesse viajar para Madri, ela faz e fala o contrário do que a maioria dos pais costuma dizer a seus filhos. Ela diz que Joaquin não lhe deve nada, mas ela deve a ele. Que não foi ela que lhe deu a vida, mas ele que conferiu vida a ela.
     Para mim, esse e outros trechos expressam perfeitamente a idéia que tenho da maternidade e da paternidade. Não acredito que sejam um gesto de generosidade, como a maioria dos pais gosta de dizer aos filhos e sim um ato de egoísmo. E assim resultam ilegítimas as típicas chantagens: "eu me sacrifiquei tanto por você".
     Pode-se ser generoso sim na educação, na formação dos filhos, abrindo mão dos próprios prazeres para propiciá-los a eles. Mas, a decisão de ter filhos, de procriar, é um ato egoísta. Devemos estar dispostos a pagar um preço pelo prazer de procriar e educar, e não esperançosos de no futuro resgatar uma dívida. Já escrevi a respeito disso, com mais detalhes, em uma crônica publicada em O Popular, chamada "Não pedi pra nascer". Depois, pretendo publicá-la também aqui.
     De qualquer forma, senti vontade de registrar o quanto a figura de Roma me impressionou: uma mãe que oferece as asas ao filho para que ele alce vôo para longe do ninho, em vez de simplesmente tolhê-lo como fazem muitos pais. Ela propõe claramente que Joaquin não sofra por não viver de acordo com o que "ele" acha que "ela" espera dele. Isso sim é criar um filho para que seja livre.

10-04-2011

A classe dos retardatários

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Há algum tempo, escrevi uns versos assim: “Te conhecer me vez ver que chego atrasada sempre/ E que meu amor por você nasceu sol poente”. Fatos e fases que motivaram esses versos à parte, ultimamente ando pensando que esse negócio de chegar tarde, atrasada sempre, é um mal de família, ou talvez não tanto um mal, mas uma característica minha e dos meus.

Num tempo em que todos têm pressa, em que a juventude é tão valorizada e obsessivamente cultivada, em que pessoas muito jovens realizam tantas coisas, uns atingem aos vinte poucos anos o sucesso profissional, outros se casam e têm filhos  ainda tão verdes, muitas vezes fico pensando que as coisas para mim acontecem tarde. E há alguns dias, conversando com uma amiga e uma prima que andaram participando da tal Constelação Familiar, um tipo de terapia que identifica padrões repetitivos de comportamento ao longo de gerações,  comecei a observar que em minha família,  alguns padrões se repetem,  que todos ou quase todos são um pouco “tardios” ou retardatários.

Minha mãe mesmo costumava dizer que se casou tarde, moça velha para a época dela. Tinha 26 anos quando se casou com meu pai, num tempo em que as moças costumavam se casar com 15 anos, muitas vezes antes. Meu pai também tinha 26 e eu, filha temporã, caçula de quatro irmãos, só fui nascer quando minha mãe já estava com 37.

Meu pai também era considerado um “tardio”. Muito lento, excessivamente calmo, nos gestos e na maneira de falar, sempre foi alvo de piadas e brincadeiras dentro da família dos Nania, uma família de fala mansa e mansa em essência. Vagaroso, dono de um ritmo todo seu, às vezes enternecedor e divertido, outros exasperante, estava sempre plantando a roça, quando os outros estavam colhendo a lavoura. A exacerbação da tranquilidade.  Ou seja, frequentemente perdia o tempo certo de plantar e sofria depois com os males do clima: chuvas ou sol em demasia.

 Mas como dizia ele mesmo ou um tio, não sei ao certo: uns almoçam mais cedo, outros almoçam mais tarde, mas no fim todos almoçam. Maneira bem humorada de encarar a constatação de que cada um tem seu tempo, seu ritmo. Meu pai, com sua calma inigualável, é acima de tudo um otimista. Um otimista que a vida toda nos fez chegar atrasados às festas. Era otimista demais para acreditar que elas já pudessem estar terminando.

 E observando agora essa característica, vejo que ela se repete com outros da família. Tenho, por exemplo, um irmão, que, viúvo, pai de dois rapazes já com mais de vinte anos, agora, já com 50 anos, casou-se de novo e vai ser pai novamente de uma menininha. Meu outro irmão, também beirando os 50, decidiu voltar para a faculdade de Engenharia Civil, que abandonou quando bem mais jovem. E eu mesma acabei por ser mãe quase com a mesma idade que minha mãe tinha quando me gerou.

Às vezes não é muito fácil lidar com isso. É comum eu ter a sensação de que pertenço à classe dos atrasados. Quando eu ainda cursava o primário, era comum ter nas escolas uma sala em que ficavam os alunos mais velhos, que entraram tarde na escola ou que haviam sido reprovados. Eram os repetentes, os atrasados. Por outro lado ou talvez para confirmar minha sensação de retardamento, não me sinto jamais com a idade que tenho, já me aproximando dos 40. Vejo-me fazendo coisas e descobertas próprias dos bem jovens.  Não me dou mais do que 25, mentalmente e em vivência, claro.  Sinto que tenho muito ainda por fazer, por realizar.   E o prazo de uma vida será suficiente para um retardatário? Retardatário ou retardado?

Espero que sim e, para reforçar minhas esperanças, lembro que em minha família, se não somos precoces, se não somos pessoas à frente de nosso tempo (talvez estejamos sempre aquém dele), somos longevos. A longevidade tem sido até agora uma característica predominante, ao menos no ramo paterno. As grandes orelhas da maioria dos Nania o atestam. É crendice popular dizer que  quem tem orelhas grandes vive muito. Vivem muito justamente porque são vagarosos? E são vagarosos justamente porque custa carregá-las? Ou será porque, com orelhas tão grandes, ouvem muito,  ouvimos demais, ouvimos tanto que ficamos confusos e demoramos excessivamente a tomar decisões?

P.S: Minha irmã, que a seu modo é também uma retardatária, não concorda comigo, porém. Não acredita que se trata de um padrão de família, mas muito mais de um fenômeno de nossa época. As pessoas estão se casando mais tarde, tendo filhos mais velhas, saindo tardiamente da casa dos pais e, claro, vivendo mais. Também faz sentido. Quando Balzac escreveu sua "Mulher de 30 anos", não se ousava pensar que uma mulher pudesse amar após os 20. Hoje, como já ouvi por aí, as quarentonas de agora são as balzaquianas das antigas gerações.