04-08-2007
O cão que come flores

O cãozinho come flores. Ele come. Como mastiga qualquer coisa qualquer cão pequeno. Filhotes precisam experimentar o gosto do mundo, para aprender a afastar-se de seus venenos. Ao vê-lo ali no canteiro da larga avenida de Curitiba, por mais poética que fosse a cena, Aline teve pena. Supôs que tivesse fome.
Ela sempre se penaliza dos bichos em abandono. Ela e o namorido Paulo, em gestos de sensibilidade e insensatez – o mar para eles não andava para peixes, talvez para cachorros-quentes e espetinhos de gato –, viviam recolhendo bichos feridos e por aí largados.
Em uma manhã chuvosa em Goiânia, Paulo assistiu ao atropelamento de um cão de rua. O motorista se foi e o animal ficou ali, agonizando. Ele o recolheu a uma clínica veterinária, onde pagou para que fosse sacrificado, já que não havia mais chances de recuperação, só agonia.
Mas a dupla incansável de protetores de animais, se não estava nadando em dinheiros, flutuava em pêlos. Perdi a conta de quantos gatos eles adotaram e tentaram adotar, no pequeno apartamento térreo onde viviam, ainda aqui em Goiânia. Havia muitos gatos abandonados por ali, na aérea comum do condomínio. Pois eles lhes davam comida, compravam remédio. Acolhiam as gatas grávidas para que parissem na área de serviço, mas deixavam a janela aberta para não tolher a liberdade felina.
Quanto não foi o que gastaram tentando salvá-los da vida e da morte aventurosa de gatos vadios. Paulo e Aline levantando-se de madrugada para ir ao veterinário, tentando salvar Monalisa, a gata enigmática que em seus mistérios se foi. O trabalho que tiveram para achar dono para cada um dos filhotes dos quais cuidavam, antes da mudança para Curitiba.
E na nova cidade, na nova vida, Aline quer interromper o passeio para levar o cão que come flores consigo. Liga para Paulo, denunciando o abandono, e ele, de imediato, quer sair do trabalho para empreender mais uma operação de salvamento. Meus super-heróis dos bichanos, dos cães sem dono! Meus super-amigos!
Aquele cão tinha, porém, um dono suposto e suspeito. E para fazer espetáculo, no meio da avenida, aparece um senhor curioso e ruidoso, desses que há nas ruas de qualquer cidade, que se junta em toda roda onde há algo para ser espiado ou discutido. Começa a dar seus palpites. O suposto dono é um morador de rua, aparentemente bêbado. Diz que o cãozinho que mastiga pétalas roxas é do amigo. O curioso senhor discursa que eles não têm condições de cuidar do bicho.
Assim a confusão vai se armando, os moradores de rua ao redor se juntando, em tenso conselho. Os ânimos se acirram. Para piorar, o cão corresponde aos carinhos de Aline, pressentindo decerto o amor legítimo, mas ignora solenemente os chamados do suspeito dono. Aline chega a ligar a sociedade protetora dos animais, sempre ao telefone com Paulo – ele acompanhando-a no drama de tentar salvar os animais das garras humanas. A sociedade diz nada poder fazer, no entanto.
Aline tampouco poderia propor algo, como a compra do animal. Acabaram de se mudar para Curitiba e moram ainda num flat. Diante da tensão do clima, sugiro que a gente siga em frente. Não podemos confiscar simplesmente bichos aos seus donos, como não podemos tomar aos pais negligentes os seus filhos, ainda que os tratem sem carinho. Aline aceita seguir, em prantos. Mas leva flores consigo. Flores que nem o Cão nem o tempo comem. Flores de São Francisco.
10:19 Permalink | Comentários (4) | Enviar por e-mail
01-08-2007
Quem vê pressa não vê perfeição

Em algum tempo remoto do semáforo, provavelmente o vermelho, já fui um desses motoristas impacientes e impávidos, que cortam sempre, inclusive pela direita, estrepitoso, com a buzina de mugido ou trilha sonora de “O Poderoso Chefão” – uma mão nela, outra no guidão.
Possuía pressa. Estava permanentemente prestes a salvar o mundo, a resgatar o pai da forca, como se as coisas mais importantes e urgentes só a mim sobreviessem. E vinham. Pela frente, miseráveis pedestres espremendo-se contra as faixas, eu acelerando para lhes fazer graça. Não lhes permitindo a humilhante passagem, ultrapassando os velhos e gastos, as carroças, as sucatas.
Encostava meu pára-choque no alheio, arrancava urros do motor e gritos de horror. Só minha preferência nas rotatórias. Eles que freassem, os fracos e bobos. À esgueira, cabendo em qualquer parte. Fechando, quando, tentavam, em vão, ultrapassar.
Era demasiado meu amor por carros. Tive os melhores, até daquela fábrica alemã que nos primórdios produziu aviões e que mantém na marca o desenho da hélice. Fruíamos sucesso com as mulheres, elas, de nascença com GPS defeituoso, deslumbradas com o painel de mil luzinhas. Eu lhes proporcionava o céu. Não se importavam que eu morasse lá na vila caixa-prego, não lhes abrisse a porta, não lhes desse os presentes inúteis do respeito e do amor.
Carros não eram para homens como eu o substitutivo para o falo, mas sua ampliação, proclamação para o mundo. E como ficavam ainda mais potentes os amplificadores, quando eu os brindava com boa cerveja, uísque envelhecido, vinho de certa fineza. Convenientemente, eu tinha sempre, atrás dos bancos, garrafa e saca-rolhas reluzente, que desembainhava na hora oportuna, para, junto, sacar-lhes os vestidos e os escrúpulos. Os bracinhos do saca-rolas lentamente se erguiam, como se tomados de assalto ou preparando-se para se atirar em suicídio. A sensualidade da rolha surgindo, o corpo de cortiça embebido em tinto, o espírito do vinho enfim libertado.
Em uma viagem é que se deu o imprevisto. Eu arrancara para um final de semana no lago. A lancha ia atracada no engate. A loira em mim atracada. Ultrapassagem brilhante, as duas faixas amarelas faiscantes, as curvas se oferecendo, fáceis. Algo me fincou a perna. Os bombeiros conseguiram sacar enfim a viga de aço encravada. Mas o pé direito quedou ali, preso, enamorado do acelerador. Mandou-se com o resto, para o ferro-velho.
Assim tomei gosto por carros antigos, ou melhor, velhos, caindo aos pedaços, que já não pagam imposto, variantes, opalões, fuscas no pior de seu estado. Com o dispositivo acelero, calmamente, quando não me ocupo da mudança de marcha. E eles, os fortes, os potentes, os lançamentos do ano, morrem de raiva, quando atravanco o trânsito, quando humildemente roço minha lataria descascada nas suas pinturas brilhantes. Quando trafego, vagarosamente, pela esquerda, porque já não tenho nenhuma pressa de chegar aonde chego.
22:15 Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail
30-07-2007
BLOGAGENS
Sexo por compaixão,
maternidade por egoísmo

Nesse final de semana, assisti a dois filmes, um espanhol e outro argentino. E não foram exatamente aqueles filmes desesperadamente depressivos que eu, Aline e Paulo costumávamos assistir nos domingos de tédio, para "puxar angústia", como diria Fernando Sabino. Nada que se compare ao absolutamente deprê "Às segundas ao sol", de Fernando León de Aranoa. Nada tão down que me fizesse achar o suicídio uma opção divertida.
Assisti primeiramente a "Sexo por compaixão", um filme engraçado de Laura Maña, na verdade uma produção da Espanha e do México. A gorduchinha Dolores, uma mulher de generosidade extrema, depois que é abandonada pelo marido Manolo, justamente por seu excesso de generosidade, começa a prestar seus serviços amorosos e generosos aos homens da cidadezinha sem cor e graça.
Tudo o que ela deseja é pecar, um sentimento que desconhece absolutamente. A cidadezinha, naturalmente, torna-se colorida depois que ela se torna Lolita - efeito do próprio filme, que havia começado em preto e branco. Mas não é esse expediente, até bastante comum no cinema, que lhe confere graça. O encanto está mesmo no desdobramento surpreendente das ações e, claro, no comportamento de Dolores, que entrega seu corpo, não por desejo ou por dinheiro, mas simplesmente por se apiedar das dores dos homens.
Além do filme de Laura Maña, assisti também a "Roma, um nome de mulher", dirigido por Adolfo Aristarain. A produção argentina e espanhola conta a história de um escritor que está compondo sua biografia, marcada pela figura forte da mãe Roma. Foi aliás o comportamento dessa mulher, eixo da narrativa, o que mais me impressionou, justamente porque, na forma com que educa o filho Joaquin desmistifica um monte de invencionices culturais acerca da maternidade.
Em um dos diálogos, após, sem que o filho soubesse, Roma ter vendido seu piano para que ele pudesse viajar para Madri, ela faz e fala o contrário do que a maioria dos pais costuma dizer a seus filhos. Ela diz que Joaquin não lhe deve nada, mas ela deve a ele. Que não foi ela que lhe deu a vida, mas ele que conferiu vida a ela.
Para mim, esse e outros trechos expressam perfeitamente a idéia que tenho da maternidade e da paternidade. Não acredito que sejam um gesto de generosidade, como a maioria dos pais gosta de dizer aos filhos e sim um ato de egoísmo. E assim resultam ilegítimas as típicas chantagens: "eu me sacrifiquei tanto por você".
Pode-se ser generoso sim na educação, na formação dos filhos, abrindo mão dos próprios prazeres para propiciá-los a eles. Mas, a decisão de ter filhos, de procriar, é um ato egoísta. Devemos estar dispostos a pagar um preço pelo prazer de procriar e educar, e não esperançosos de no futuro resgatar uma dívida. Já escrevi a respeito disso, com mais detalhes, em uma crônica publicada em O Popular, chamada "Não pedi pra nascer". Depois, pretendo publicá-la também aqui.
De qualquer forma, senti vontade de registrar o quanto a figura de Roma me impressionou: uma mãe que oferece as asas ao filho para que ele alce vôo para longe do ninho, em vez de simplesmente tolhê-lo como fazem muitos pais. Ela propõe claramente que Joaquin não sofra por não viver de acordo com o que "ele" acha que "ela" espera dele. Isso sim é criar um filho para que seja livre.
13:40 Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail


