16-08-2007
Em bons lençóis

Hoje me encontro
em bons lençóis.
Já não durmo a insônia
dos que sonham sós.
Não seco a dor na fronha,
não me reviro no virol.
Não mais acorrentada
aos pés da cama,
atrás da porta,
sofrendo Elis
Regina
e tanto quanto se imagina
quando se pensa morta.
Não mais
sepultando-me no quarto,
com todas as luzes apagadas,
e caixas caixas caixas caixas
forjando presentes que eu me daria.
Eu ali, cápsula,
alegria capciosa
nas caixinhas cor de ro...
Hoje, só rosas
e o cheiro fresco
das laranjeiras
nas roupas novas.
E joaninha,
que entre dois
se aninha.
11:00 Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail
07-08-2007
O fabuloso mundo das calcinhas

Fabuloso e injustamente explorado o mundo das calcinhas. Nunca ganharam uma campanha publicitária, como aquela célebre: “o primeiro sutiã a gente nunca esquece”. Naturalmente, pois, afinal, qual de nós se lembra da primeira calcinha? Éramos pouco mais do que um molde de gente, quando as fraldas foram substituídas por elas. Vamos fazer-lhes justiça. Podemos nos vestir como verdadeiros caminhoneiros, mas ali por baixo de nossa armadura, ela reinará: a calcinha, nossa marca, exclusivamente feminina. Nossa identidade.
A lembrança mais remota de que tenho de uma calcinha em minha vida era daquelas com as quais costumava se embonecar as meninas, no tempo em que, para o bem e o mal de bonecas, devíamos trajar cores suaves, bordadinhos, babadinhos e saias bufantes – e não as roupas de mulheres em miniatura de hoje. Tinha rendas no bumbum e com ela vivi um divertido episódio da infância na fazenda, de que me recordo mais pela imaginação do que pela memória.
Minha mãe e irmã, para se divertir às custas da minha pequenez, estumavam o vira-lata atrás de mim. Parecia enorme a distância entre a varanda da casa e a porteira. Eu corria, o cachorro disparado atrás. E quando finalmente, com minhas pernocas curtas, alcançava as primeiras tábuas da porteira, o cãozinho já estava lá dependurado nas rendas, rosnando. Eu abria um só berreiro.
Mas, exceto por esse episódio, nunca tinha reparado muito nelas, não lhes dava mais atenção do que às meias. Usava o que minha mãe me comprava, sem ligar a cores ou modelos. Apenas tomava o cuidado de não usar uma calcinha furada quando saía de casa, pois, como ela dizia, a gente nunca sabe o que pode acontecer. De repente, tem uma sapituca no meio da rua e fica com os fundos de fora. E ainda, quando vestia roupa nova e calcinha velha, ela advertia: por fora, bela viola, por dentro, pão bolorento – ditado que servia também para nos ensinar o cuidado com nossa higiene pessoal e nossos sentimentos.
A chegada da adolescência coincidiu com uma importante descoberta, propiciada por uma prima mais velha, moça feita. Foi ela a responsável por ingressar num novo mundo, em que as calcinhas deixaram de ser apenas uma peça de vestuário, para ser promovidas a signos. Dizia-me a prima que em uma casa onde houvesse moças solteiras, era bom ter sempre dependurada no banheiro uma calcinha preta ou vermelha. Onde já se viu isso?! Mais tarde eu aprenderia que esse hábito é não só mau gosto ou má educação, como calcinhas pretas e vermelhas podem ser mesmo um indício de outra coisa.
Aprendi também que não apenas as cores têm variados significados. Modelos e tecidos dizem muito sobre suas donas e intenções. Calcinhas de malha de algodão, confortáveis, recomendadas pelos ginecologistas; calçolas da vovó, que alcançam a linha da cintura; as de lycra; as rendadas; as fio dental; as comestíveis. Situações envolvendo esses modelos tornam-se muitas vezes verdadeiras anedotas. É clássica, por exemplo, a situação em que a moça, para resistir a ir para a cama com o rapaz em um encontro, usa o paradoxo de uma calcinha gigante. Não resiste, porém, e passa o maior vexame. São bastantes conhecidos também os casos em que não são usadas. Mas este já o fantástico mundo das sem calcinha. Assunto para outra crônica. Ou para revistas de celebridades.
Bunda rica!!!
P.S: Ao pesquisar imagens de calcinhas na internet, encontrei, em um site de vendas de roupas íntimas, a imagem de uma calcinha muito parecida com aquelas que usávamos na infância. Descobri que o nome desse modelo, cheio de rendinhas, é bunda rica. Que modelo será então o de uma calcinha bunda pobre?
16:45 Permalink | Comentários (3) | Enviar por e-mail
06-08-2007
BLOGAGENS
Nosso olho maior que a barriga
Fartura ou desperdício?

Ontem assisti a uma matéria no Fantástico sobre o desperdício de alimentos nos restaurantes. A matéria mostrou os preocupados Chitãozinho e Xororó, donos de uma rede de churrascarias. Aqui em Goiânia, há uma delas, com uma foto gigante dos dois, abraçados ao também cantor sertanejo Leonardo. Trata-se de um ambiente - não me refiro ao local nem à qualidade da comida - que peço licença para ter o direito de abominar. Mas minhas abominações não vêm ao caso aqui.
Gostaria mesmo de falar sobre a reportagem, que mostrou as restrições feitas pela Vigilância Sanitária ao reaproveitamento e doação de alimentos servidos nos restaurantes. As normas são rígidas sim: alimentos servidos à mesa e não consumidos, não podem ser doados, por exemplo a instituições filantrópicas, pois há risco de que tenham sofrido algum tipo de contaminação. Aqueles espetões gigantes que sobram nas churrascarias também não.
E esse ponto mesmo é que os cantores-proprietários questionam: por que não flexibilizar as normas, para que a carne, ainda em boas condições de consumo, seja aproveitada? A reportagem mostrou então que os cantores liberaram os funcionários para comer tanto quanto queiram após o serviço, o que também não solucionou o problema, uma vez que as sobras são muito mais do que eles podem consumir.
Acho justo o questionamento sobre as regras, mas ao assistir às entrevistas, me ocorreu questionar também se esse modelo de restaurante, as churrascarias, caracterizado pela abundãncia, não é um modelo que deveria ser revisto e até mesmo abolido. Agora que todos falam tanto em combater os danos ao meio ambiente, em repensar nossos atos de consumo, por que não refletir sobre esse tipo de estabelecimento que, ao servir fartura, estimula o desperdício?
Afinal, sejamos sinceros, a maioria das pessoas quando paga um rodízio em uma churrascaria, paga para se encher até a borda, recusar comida, não dar conta mais. Se não houver um garçom surgindo a cada minuto com um espetão fumegante, o serviço não é bom. É preciso jogar comida fora, pra valer o dinheiro gasto.
Ignoro se nos países europeus existem churrascarias ou restaurantes similares em desperdício de comida. Não creio, pois o velho continente, que não dispõe da nossa continentalidade e da nossa exuberância natural, já muito padeceu de fome, para não fazer um prato refinado do "arrozd`onté" ou do queijo embolorado. Parece-me que essa cultura do desperdício também tem muito a ver com a fartura dos trópicos.
Por fim, eu que, embora carnívora, não sou nada amiga de churrascarias, acredito mesmo que é muito mais vantajoso e justo pagar por pratos individuais, que em geral vêm com uma quantidade adequada para consumo, ou, melhor ainda, freqüentar os populares restaurantes por quilo. Assim, o olho não fica tão maior que a barriga. E quando a gente estiver com a barriga cheia, se sobrar algum dinheiro, a gente pode comprar comidinha nova para os pobres, em vez de presenteá-los com nossas sobras.
14:45 Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail


