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02-05-2016

Coincidências

chave.jpg

Foto: Memorial do Cerrado (PUC- Goiás)

 

Estranhas coincidências deram de repente
para se dar comigo.
É gente que eu não via há anos
e belo dia passo a esbarrar todos os dias
pelas esquinas.
São reencontros festivos
com gente desconhecida
e, num par de minutos,
já estou a par de toda a sua vida,
como se fôssemos velhos amigos.
Eu estou folheando um álbum de fotografias antigo
de um tempo em que eu nem havia nascido
e não é que encontro ali
o meu próprio retrato!
São presentes que me chegam por todas as vias,
pelos Correios,
do inopinado.
É gente que chega e parte
por um único intervalo de tempo,
mas sua chegada é tão avassaladora,
que ao partir,
já não sou a mesma,
mas outra.
E sei que por ela também passei,
transformadora.
São antepassados
que procuram por seus descendentes
e o futuro que os convoca no passado.
É gente, muita gente,
coincidente!
E toda coincidência
é uma mera obra do acaso,
mas uma obra inacabada.

Para ouvir o poema, clique aqui:
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Música: Woody Allen - Songs from Woody Allen's Films (Meia Noite em Paris)

09-04-2016

Sonhador disparado, coração disparatado

instrumento musical.jpg

Por Condessa, a Miss Austen e ao cavalo

Ah, o velho e bom sonhador disparado...
Quando você pensa que se aposentou
ou que está emperrado,
ele apita
e você não diz para.
E lá vem de novo o tal coração disparatado.
Você argumenta consigo:
a senhora não tem mais idade
para esses disparates!
Tá variada? É desvario.
Mas o disparador dispara tão alto,
que não é possível dar ouvido
senão ao seu zunido.
Para você é música.
Repare,porém, minha senhora:
é só ruído
ou é tão desafinado.
Não há compasso.
Não há ritmo.
Não se faz dueto tocando sozinho.
Quer dançar de novo um tango argentino,
cada qual empurrando o outro para o outro lado?
Não, eu quero valsa.
Sinto muito.
Para isso,melhor só sonhar dormindo.

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30-12-2015

Fenestras

janela rachadura.jpg

Bati em muitas portas fechadas.

Algumas não se abriram porque o dono tinha se ausentado.

Fora tirar férias na praia ou na Europa

ou onde Judas perdeu as botas.

Outras porque a casa sempre estivera vazia, ainda que habitada.

Bati em muitas portas erradas.

Havia gente lá dentro, mas não quis abrir,

temendo assaltos de correntes de vento,

que eu fosse uma vendedora da palavra de Deus,

dos homens, de enciclopédias, livros, de bíblias,

do sétimo dia  e outras quinquilharias.

Algumas estavam apenas cerradas

e eu não suspeitava de que o morador até desejava receber visitas,

mas não havia forças à vista

ou estava acorrentado na cama em que se deitou ou o deitaram.

Esperava, desesperado, que alguém entrasse sem bater.

Bati palmas para portas que quis ver arrombadas,

supondo tesouros quando não preservavam nada.

Muitas me mandaram calar as ideias descabidas

ou bater na porta da esquina.

Fui e bati

e ali havia uma placa de aluga-se ou você está sendo filmada.

De algumas, das profundezas me gritaram:

trouxeste a chave?

Ou ela está debaixo do capacho.

Mas nunca encontrei esses diachos.

Bati e enquanto eu batia

havia outras portas que se abriam,

mas eu já tinha partido.

Bati e nos batíamos e não víamos.

Ou eu quisera passar por estreitos corredores

de onde todos saíam, sofredores, aflitos.

Muitas sempre estiveram para mim escancaradas

e eu as transpusera, desapercebida,

porque a gana de bater era o sentido da estrada,

ou porque havia escuridão ou luz demasiada

que ofusca a visão

daqueles que batem e daqueles que abrem.

Batia enquanto não sabia que não são

a única fresta por onde entrar

ou que estar aqui é o mesmo

de estar lá.

 

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