15-05-2012

Oráculo

 

"Antologia de textos, músicas e pessoas"

Você finalmente está perto.
Mas estará pronto?
Faz tempo que eu te chamo
e meu clamor era ouvido ao longe.
Eu sei que o som se propagava
e ia ao seu encontro.
Mas é tão mais custoso
identificar a origem de um canto
do que um sinal enganoso
de fumaça.

Talvez, como eu,
você tenha caminhado
em direção às fogueiras festivas,
você tenha se distraído
e consumido as asas
em volta das lâmpadas
de 150 watts.
São tantos os códigos Morse,
são tantas as pontes falsas.

Nosso encontro foi realmente marcado?
Faz anos?
Faz séculos?
Terá você, como eu,
consultado
mapas astrais,
cartomantes,
oráculos?
Terá andado enganado e desenganado,
tecendo e destecendo mantos,
trabalhado por dez, sete anos
ou mesmo amarrando-se
a mastros?

Algo em mim que nem é consciência,
nem fantasia,
nem premonição,
mas poesia,
diz que não:
não estou errada.

Você está perto,
mas não sei se está pronto.
Então,
se talvez eu dissesse
que é chegada a hora de nosso encontro,
você não suportasse
e me mandasse fugir
por outros milhares de anos.

 

E mais um vez nós nos buscaríamos

extraviados

em envelopes de carne,

adiando, deixando

pra mais tarde.

Por isso me calo.

Por isso este segredo

 só será revelado

 o dia em que

 você de mim se acercar

 e disser:

 “Mulher,

 eu ouvi  seu chamado”.


Antologia de textos, músicas e pessoas, fevereiro de 2012.

Para ouvir: http://www.youtube.com/watch?v=ZACzrdMp068&feature=yo...

 

 

 

 

 

14-05-2012

A pastorinha

pastorinha.jpg

 

Sim, eu me interesso

 por sua herança literária,

 por seus antepassados.

 Até pelo seu passado

 que não me pertence

 e que não me deve ser contado,

 porque pode ser que ele esteja à frente

 ou ainda ao lado

 e eu é que seja o seu passado.


 Eu me volto com curiosidade

 para os seus olhos calmos,

 tentando maliciosamente

 incendiá-los.

 

Eu escuto atentamente

a sua voz titubeante

 e como ela é deliciosamente atraente.

 Ah, você mal sabe

 que não é o estrondo dos trovões

 que me rende e me convence,

 mas antes o gotejar gago da chuva

 sobre a calhas.

 

 

 Eu me divirto

 com o xadrez de suas camisas

 e por vê-lo aflito

 à procura da palavra exata,

 quando ela nem precisa ser dita.

 Eu até caçoo de você,

 intuindo um menino antigo,

 para vê-lo

 embaraçado

 em seus gestos tímidos.

 

Mas o fato é que me sinto perfeitamente

 à vontade

 e aconchegada

 e ancorada

 em seus silêncios

 e na concha tão efêmera dos seus braços.

 

 Sim, eu leio com real interesse

 os versos de seu avô

 - e que absurdo completo –

 eu tenho a impressão e a pretensão

 de possuir ali o neto.

 

 Eu já te fiz inúmeros poemas

 secretos

 e inconfessáveis.

 Mas um pouco te confessarei nesses versos.

 Eu me interesso

 por seu interesse literário,

 mas o que mesmo quero

 é a sua arquitetura

 e a estranha certeza

 que me dão seus lábios.

 

 Não, não se surpreenda

 se eu disparar em fuga.

 É que eu  me estarreço

 de pensar no preço a pagar

 por um tão grande e repentino apreço.

 Eu estou morta de medo.

 A pastorinha encontrou o seu pastor

 e teme calar-se de susto.

 

 Antologia de textos, músicas e pessoas. Fevereiro de 2012.


Para ouvir: http://www.youtube.com/watch?v=W6Aa0UpdxxQ

 

29-04-2012

Mulheres caindo de sim mesmas

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 Às vezes penso que mal desci das fraldas e já calcei saltos altos, tal a  familiaridade com os danados dos sapatos.  Por mais que me esforce, não consigo ser daquelas mulheres despojadas que calçam rasteirinhas e saem deslizando suaves, lépidas e confortáveis pelas ruas. E acho lindo, encantador mesmo principalmente os sapatos baixinhos no estilo boneca. Mas não sei usar, definitivamente ou ainda não sei. Acostumei-me aos sapatos de salto como se eles fossem um prolongamento de mim. Como a gente se acostuma com o limite do cheque especial, como se ele fizesse parte do salário. Como talvez a gente se habitue com a máscara, como se ela pertencesse ao rosto. Como o cavaleiro se acostuma com o cavalo como se eles fossem um só corpo; como o motociclista se funde com sua motocicleta, feito um centauro mecânico.

Sem eles, sinto-me pequena, estranha, outra. Claro que pago por isso: lentidão, calos, cansaço, pois sempre estaciono o carro em local distante do trabalho e preciso caminhar. E nossas calçadas subdesenvolvidas não foram feitas para a elegância do passeio público: irregulares, repletas de obstáculos, quando têm calçamentos. Já me advertiram que no futuro colecionarei varizes, joanetes e problemas de coluna. Assim mesmo, em pouquíssimas situações consigo usar chinelos ou sandálias rasteiras, talvez apenas no salão de beleza ou na praia.

Quando trabalhava como repórter, era até alvo de piadas, envolvida em situações cômicas.  Lá ia eu fazer matérias com meus saltos-agulha nos bairros periféricos, atravessando ruas esburacadas e até pinguelas.  Mesmo na cidade de Goiás, com seu antigo e mal afamado calçamento de pedras, já cometi o disparate de usá-los.

 O fascínio por saltos, porém, tem esbarrado em um estranhamento. Tenho ficado impressionada com a altura dos sapatos atualmente à venda. Creio que os fabricantes andam ultrapassando os limites do bom senso. Recordo-me que, há algum tempo, esses sapatos que são moda hoje, os chamados meia pata – sim, o peito do pé também é elevado, como as patas de cavalos – com saltos de 15 centímetros ou mais, só eram usados por drag queens ou pelas modelos nas passarelas ou nas revistas de moda.

O que ocorreu que de repente esse exagero invadiu as lojas e as ruas, e foi incorporado ao dia-a-dia de tantas mulheres? O que terá motivado os estilistas, as fábricas a conceber e produzir tal gigantismo? No Japão, já foram registrados inúmeros acidentes envolvendo japonesinhas de baixa estatura e compleição delicada que levaram tombos, e tiveram fraturas graves, depois que caíram de suas gingantes plataformas. Adeus, doloridos e “miniaturizados” pezinhos de gueixa!  Mulheres agigantadas que de repente estão caindo de si mesmas. Lady Gaga que o diga. Há algum tempo levou um tombo de sua plataforma descomunal.

A adesão a essa moda de agigantamento será uma espécie de vingança feminina pela opressão que levava a amarrar e deformar os pés queixosos para que fossem eternos pés pequeninos de menina? Não resisto à tentação das cogitações, pois sei que a moda sempre traduz costumes, valores; reflete transformações. No teatro grego antigo, os atores usavam coturnos para parecerem mais altos, para representar os heróis, que tinham uma estatura maior do que os mortais comuns.

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Terão as mulheres hoje a necessidade de afirmar-se mais altas, maiores que os homens, logo hoje quando nunca estiveram tão grandes, em tão altos postos, em tais posições de poder? Tenho visto nas ruas mulheres enormes, elevando-se acima de seus pares, algo até mais comum no Brasil, onde a estatura média do homem deve ser por aí 1,70. Mas por que afinal as mulheres desejam parecer tão grandes? Saltos são sensuais e será essa uma tendência à exacerbação da sensualidade, uma demonstração de poder sobre os homens, como se dissessem: olhem pra cima, me admirem e desejem?

Pois nesse aspecto, chamem-me de mulherzinha ou de absolutamente conservadora ou ainda de preconceituosa. Detesto sair com um homem e notar que estou mais alta que ele. Antes de um encontro, observo ou até pergunto quanto mede, que é pra medir a altura do salto do qual subirei ou do qual não descerei. Pode parecer uma bobagem, mas talvez haja um componente ancestral do desejo de ser acolhida e protegida. Notar-me mais alta que um homem não me dá a tal bendita sensação de acolhimento.

 E há duas ocasiões em que procuro avidamente tal sensação. Uma delas é quando chego em casa e vou logo tirando os sapatos, jeca-tatu urbana que não consegue estar no ambiente doméstico senão descalça, goiana do calcanhar rachado e descalçado. E há uma outra ocasião, claro, em que aprecio descer do salto e despir-me de tudo o mais que acoberte, enfeite e mascare, de brincos, anéis, colares e o resto mais. E que deliciosa é a experiência de descer do alto de si mesma, abandonar seu artificial prolongamento e sentir-se apequenar-se, encolher nos braços daquele a quem se quer, deixar-se acolher e ser, se não do mesmo tamanho, até menor.  

 Pois será isso precisamente e de modo paradoxal que procuram as mulheres? Depois de tanto lutar para se igualar aos homens em direitos e poderes – que se recordem as grandes ombreiras masculinizantes dos blazers usados nos anos 80 –, não tendo sido bastante, querem provar que são maiores, erguendo-se em altíssimos saltos? Tudo isso para depois revelar, na intimidade do ambiente doméstico, que continuam pequenas, frágeis e ávidas de proteção? Tudo isso logo agora que a ocasião é a mais  propícia para que homens e mulheres se encontrem, e estejam finalmente em verdadeira condição de igualdade, nem maiores, nem menores, nem melhores, nem piores, mas da mesma estatura, não precisando abdicar de si mesmos nem da verdadeira altura?