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06-07-2018

Sinfonia

 

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Foto: Rimene Amaral

 

Para ouvir o poema, clique aqui:

Sinfonia.mp3

 

Você que tem mais coragem de passar fome
que botar a boca no trombone.
Você que carrega o piano
e tem que ficar pianinho 
diante de quem te leva no bico da flauta.
Você que por fora
bela viola,
e por dentro
arrebenta as cordas do coração.
Você que enfia a dignidade, a melodia, a viola no saco,
sabendo que tem gato gordo nessa tuba.
Você que ouve o ronca-ronca da cuíca e da barriga.
Você que de tanto sofrer caladinho
já está só o cavaquinho.
Você que toca um chorinho,
sem repercussão.
Você que tá tendo a pele arrancada pra fazer tamborim.
Você que clama em surdina
e ouve um silêncio orquestrado.
Você que não canta em coro
e por isso leva no pandeiro,
e que não aguenta mais de dor no tambor.
Você que não quer mais ser regido
por gente que toca o terror
e toca baixo.
Você que não quer ser usado como instrumento.
Você que quer escolher a própria partitura.
Vocês são muitos.
Acordeões.
Saquem esse saxofones.
Vocês juntos são bandas de banjos contra bandos de marmanjos manjados. 
Vocês juntos são sinfonia. 

 

02-05-2016

Coincidências

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Foto: Memorial do Cerrado (PUC- Goiás)

 

Estranhas coincidências deram de repente
para se dar comigo.
É gente que eu não via há anos
e belo dia passo a esbarrar todos os dias
pelas esquinas.
São reencontros festivos
com gente desconhecida
e, num par de minutos,
já estou a par de toda a sua vida,
como se fôssemos velhos amigos.
Eu estou folheando um álbum de fotografias antigo
de um tempo em que eu nem havia nascido
e não é que encontro ali
o meu próprio retrato!
São presentes que me chegam por todas as vias,
pelos Correios,
do inopinado.
É gente que chega e parte
por um único intervalo de tempo,
mas sua chegada é tão avassaladora,
que ao partir,
já não sou a mesma,
mas outra.
E sei que por ela também passei,
transformadora.
São antepassados
que procuram por seus descendentes
e o futuro que os convoca no passado.
É gente, muita gente,
coincidente!
E toda coincidência
é uma mera obra do acaso,
mas uma obra inacabada.

Para ouvir o poema, clique aqui:
podcast

Música: Woody Allen - Songs from Woody Allen's Films (Meia Noite em Paris)

09-04-2016

Sonhador disparado, coração disparatado

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Por Condessa, a Miss Austen e ao cavalo

Ah, o velho e bom sonhador disparado...
Quando você pensa que se aposentou
ou que está emperrado,
ele apita
e você não diz para.
E lá vem de novo o tal coração disparatado.
Você argumenta consigo:
a senhora não tem mais idade
para esses disparates!
Tá variada? É desvario.
Mas o disparador dispara tão alto,
que não é possível dar ouvido
senão ao seu zunido.
Para você é música.
Repare,porém, minha senhora:
é só ruído
ou é tão desafinado.
Não há compasso.
Não há ritmo.
Não se faz dueto tocando sozinho.
Quer dançar de novo um tango argentino,
cada qual empurrando o outro para o outro lado?
Não, eu quero valsa.
Sinto muito.
Para isso,melhor só sonhar dormindo.

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