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27-05-2016

Dublê

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Imagem: Atena  - Fonte: Google

 
Se eu não tivesse nascido tão antigamente,
se fosse mais contemporânea,
você não escaparia
facilmente
da minha artilharia.
Eu mobilizaria exércitos de amazonas,
usaria táticas de guerra e de guerrilha,
armaria emboscadas pelas selvas e estradas,
te cercaria por todos os flancos.
Não haveria um só planalto central, campo
ou campinas
em que eu não plantasse minas
ou construísse engenhosas pontes.
Se eu não fosse tão antiga,
mas um pouco mais menina,
estudaria todas as estratégias
e mapas
e não haveria na Terra
um rincão
em que eu não te encontrasse
e te alvejasse o coração
com uma bala de canhão.
Mas lamentavelmente
nasci antes do tempo,
restando de mim já tão
pouco,
que para obter o seu amor
não me resta recorrer senão,
como Cyranô,
a uma dublê de corpo.
Prazer. Sou Atena.
Às vezes também alguém me chama
Diana.
 
Para ouvir o texto, clique aqui:

podcast

Música: Final Count - Kevin MacLeod - Youtube Audio Library
 

03-05-2016

Pintura

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Lucien Freud Retrato de su amigo, el bailarín Leigh Bowery

Miss Austen quando constrói a criatura amada
pinta ora uma obra clássica
ora um quadro impressionista.
E nunca economiza nas tintas.
Mas quando a realidade irrompe
de dentro do retrato,
ela se atira em lágrimas no leito,
culpando não o objeto imperfeito,
mas a pobre artista.
E é nessa hora que irrompe Condessa
dedicando-se com afinco
a mostrar uma realidade naturalista.
À dama devassa
não escapa um único defeito.
Vai raspando cruelmente camada a camada.
É especialista
em realçar os ridículos
e os fracassos.
Com precisão,
não de artista,
mas cirurgião,
não há ilusão que lhe sobreviva.
Sorte é que nunca faz um vernissage.
Guarda seus retratos num museu,
fechado para visitas,
porque se os pusesse
em exposição
seria de doer as vistas
e mais nenhum varão se arriscaria
a comparecer a seu salão
ou ao leito de senhorita.

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Música: Libertango - Ensamble Tango Fussion

02-05-2016

Coincidências

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Foto: Memorial do Cerrado (PUC- Goiás)

 

Estranhas coincidências deram de repente
para se dar comigo.
É gente que eu não via há anos
e belo dia passo a esbarrar todos os dias
pelas esquinas.
São reencontros festivos
com gente desconhecida
e, num par de minutos,
já estou a par de toda a sua vida,
como se fôssemos velhos amigos.
Eu estou folheando um álbum de fotografias antigo
de um tempo em que eu nem havia nascido
e não é que encontro ali
o meu próprio retrato!
São presentes que me chegam por todas as vias,
pelos Correios,
do inopinado.
É gente que chega e parte
por um único intervalo de tempo,
mas sua chegada é tão avassaladora,
que ao partir,
já não sou a mesma,
mas outra.
E sei que por ela também passei,
transformadora.
São antepassados
que procuram por seus descendentes
e o futuro que os convoca no passado.
É gente, muita gente,
coincidente!
E toda coincidência
é uma mera obra do acaso,
mas uma obra inacabada.

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Música: Woody Allen - Songs from Woody Allen's Films (Meia Noite em Paris)