23-11-2009

O caso do vestido

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A atitude dos estudantes de uma universidade paulista que ameaçaram e constrangeram outra estudante por ela usar um vestido curto é indiscutivelmente absurda e condenável. É isso que deveria ter ficado no centro das discussões e não se aquele era ou não um traje adequado para frequentar uma instituição de ensino. Nem que ela estivesse fantasiada de odalisca, que carregasse na cabeça uma melancia, teriam o direito de agir da forma desrespeitosa e desumana como agiram.

No entanto, esse episódio me fez ter vontade de abordar um assunto: a forma como as brasileiras se vestem e lidam com a sensualidade no seu vestuário. Aquela moça se vestiu como muitas, se não a maioria das mulheres, se veste atualmente, se não para ir ao trabalho ou à escola, para ir a uma festa ou restaurante. Não sou especialista em moda e posso ser imprecisa em minhas observações, mas já há bastante tempo que noto que as brasileiras se vestem de uma forma exageradamente sensual, se comparadas a mulheres de outro países.

Naturalmente, o uso de roupas curtas, justas e decotadas está ligado ao nosso clima tropical, mas a sensualidade não se restringe ao comprimento das saias ou à profundidade dos decotes. De uma forma geral, a moda que predomina no Brasil, que está vitrines, e sobretudo nas ruas, é caracterizada pelo uso de calças justíssimas e de outras peças que exibem e acentuam as curvas do corpo feminino.

Recordo-me, porém, que nem sempre foi assim. Até a década de 90, não se usavam roupas tão coladas ao corpo. Foi mais ou menos nessa época, acredito, que se difundiu o uso do chamado cottom, tecido coladíssimo ao corpo e outras malhas. E esse novo estilo foi incorporado por todas, não só pelas chamadas mulheres vulgares – distinção que muitos ainda insistem usar – mas também pelas mocinhas de boa família, pelas magras e também pelas gordinhas. É claro que a moda é dinâmica e houve tentativas de se introduzir peças mais largas e discretas no vestuário feminino, mas essa tendência se incorporou de vez ao guarda-roupa da mulher brasileira.

Como a moda não é gratuita e reflete valores e toda uma cultura, o que questiono é o que está por trás desse vestir sensual. Nas últimas décadas, houve uma supervalorização da sensualidade na identidade da mulher. Ser gostosa, ser sensual é ter poder, é condição para ser bem aceita, bem-sucedida e para encontrar o par amoroso ideal. Hoje, já não basta que a mulher tenha qualidades, como beleza, inteligência, educação, ela deve ser na sociedade uma dama, mas um avesso fogoso na cama. Deve despertar olhares, desejos, insinuar suas qualidades sexuais na forma de vestir, mas ela mesma deve frear seus próprios desejos, sob pena de parecer fácil, vulgar.

Mesmo as moças para namorar e casar – distinção que parece anacrônica, mas que ainda se ouve muito por aí – têm o costume de realizar, não mais o chá de panela, mas o chá de lingerie, para que ganhem das amigas peças sensuais que possam exibir diante de seus sortudos maridos. A mulher, no entanto, diante de tantas expectativas contraditórias em relação a sua figura, fica confusa. Se a prostituta e a mulher casadoira se vestem da mesma maneira, como dizer ao mundo “o que sou”. É preciso despertar a cobiça no olhar, mas é preciso ter recato? Alguma está fora do lugar. Será a moça que vestiu o vestido no lugar errado? Ou será essa moralidade dúbia, falsa, que coloca a mulher exposta como uma peça de carne num açougue e ao mesmo tempo lhe diz “não ouse”?

21-10-2009

Minhas mãos

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Outro dia, finalmente comprei uma pasta para organizar o material que utilizo com meus alunos em sala de aula, para guardar seus trabalhos, atividades, para reunir as dezenas de folhas avulsas nas quais faço anotações, rabisco datas, nomes, e-mails, telefones, e que tantas vezes se perdem e se tornam ininteligíveis no caos ou são carregadas pela distração ou pelo vento. E de repente, só nesse dia e momento emergiu à luz da consciência aquela sensação de ausência, aquela “saudade que dói latejada”, “que é assim como um fisgada no membro que já perdi”, como canta Chico Buarque.

De repente, ao arranjar os papéis, ao tentar, com toda a minha falta de jeito e de coordenação motora, impor-lhes e me oferecer alguma ordem, percebo claramente que sinto falta das minhas mãos, das mãos que já que não tenho, daquelas que migraram para tão longe, para outro continente. Eram elas que organizavam minha vida caótica, que substituíam as minhas quatro patas de Sagitário, que reuniam amontoados de celulose em delicadas pastas de papel de carta. Era ela.

Vera era minhas mãos. Desde os tempos da faculdade de Letras, era ela que digitava meus trabalhos, dando-lhes dignidade, um aspecto decente às minhas garatujas despejadas em folhas de papel almaço amassado que certamente aterrorizavam os professores. Quando comecei a desenvolver o projeto dos Escritos para uso pessoal e doméstico, poemas impressos em caixas, foi ela quem fez, com sua habilidade, paciência e delicadeza, os protótipos das primeiras caixinhas. Os meus projetos eram também seus projetos. Ela parecia que sonhava meus sonhos e continuava ainda a sonhá-los quando para mim eles tinham se convertido em decepção ou pesadelo.

Como pode alguém ser assim de uma generosidade tão sobre-humana, a ponto de se tornar as mãos de uma pessoa? Uma tentação para nosso egoísmo e egocentrismo. Pois eu ousei dizer a ela que gostaria de ganhar dinheiro bastante para contratá-la. Que ela se ocupasse exclusivamente de todas as questões práticas de minha existência. Que não só providenciasse para que as contas fossem pagas nas datas certas, mas para que os papéis parassem de voar e desaparecer com numa casa de bruxas. Para que ela fosse a governanta não de minha casa, mas de minha vida e emoções desgovernadas.

Ironia: uma vez Vera ficou com as mãos paralisadas, como se sofresse subitamente de uma artrite violenta – mais psicológica que física, creio. Decerto foi o peso das tantas responsabilidades que assumia, o fardo da sua compulsão por cuidar. Ironia maior ainda: hoje Vera é as mãos de outras pessoas. Desde que ela partiu para a distante Londres, tive que aprender a fazer coisas com minhas patas, a torná-las minimamente hábeis. E até que não tenho me saído tão mal. É verdade que o aprendizado tem sido marcado por adiamentos, como a tão demorada aquisição da pasta com o mesmo modelo que ela utilizava.

Talvez eu não quisesse encarar a tanta falta que ela me faz. Nunca tive com ninguém mais tanta afinidade de espírito, uma amizade tão profunda e tão antiga, que, sim, parece que remonta a outras vidas. Considero-me sim verdadeiramente afortunada por tê-la tido, durante algum tempo ao menos, como parte inseparável de mim. Vera, pela sua sensibilidade, altruísmo, é um daqueles personagens que merecem ser anunciados nos jornais e cantados nos livros, como um representante legítimo, um verdadeiro modelo dos grandes e verdadeiros amigos.

04-10-2009

Perguntas de quem olha sem ver

 

trabalhador.jpgQuando cursava ainda o segundo grau, ficava intrigada com um texto que sempre encontrava nos livros de história. Eis alguns trechos de Perguntas de um operário que lê, de Bertoldt Brecht: “Quem construiu Tebas de sete portas?/ Nos livros estão os nomes dos reis./ Foram os reis que arrastaram os blocos de pedra?/
E as várias vezes destruída Babilônia –/ Quem é que tantas vezes a reconstruiu?/ (...) Para onde foram os pedreiros na noite em que ficou pronta a Mu­ralha da China?/ (...) O jovem Alexandre conquistou a Índia./ Ele sozinho?/ César bateu os Gálios./ Não teria consigo um cozinheiro ao menos?/ (...) Cada dez anos um Grande Homem. / Quem pagou as despesas?/ Tantos relatos/ Tantas perguntas.”

Esse texto era utilizado pelos professores para nos introduzir na perturbadora história da exploração do homem pelo homem, na história de uma História escrita pelos ricos e vencedores. Percebo que se naquela época ele me inquietava e me fazia pensar na multidão explorada e esquecida, como uma abstração sem rosto, hoje me evoca algo mais próximo e real.

Ao relê-lo, fico pensando nas tantas pessoas que nos servem no dia a dia e de que não sabemos absolutamente nada. O que sabemos, por exemplo, sobre o porteiro do prédio onde vivemos? Onde mora? Será um lugar agradável ou insalubre? Será ele um solitário ou tem uma numerosa família? E os garçons dos bares ou restaurantes que frequentamos, aos quais tantas vezes tratamos com impaciência ou até arrogância?

É claro que nas grandes cidades as relações são naturalmente mais impessoais do que nas pequenas, onde as pessoas, em maior ou menor grau, sempre sabem das outras, conhecendo detalhes da árvore genealógica, tragédias e últimas peripécias. Mas por aqui a indiferença, e essa relação impessoal e descomprometida, disfarçada tantas vezes de profissionalismo, chegam a extremos um tanto absurdos.

Há algum tempo um amigo meu disse que estava à procura de uma nova diarista. É que a moça que cuidava de sua casa havia anos avisou de repente que não poderia mais trabalhar para ele.

“Mas o que foi, Odete?”

“Não é nada contra o senhor, não. É que semana que vem vou ganhar neném.”

“Como assim? Eu nem sabia que você estava grávida.”

E de fato ele nada sabia, afinal, raramente a via. Ela chegava assim que ele saía para o trabalho. Quando ele voltava, ou ela já tinha ido embora ou estava indo. Ela era meio gordinha, por isso ele não notou quando e quanto lhe cresceu a barriga.

Mas talvez  a verdade mais profunda seja que ele olhava pra ela, mas não a via, como nós não vemos aqueles que nos cercam e nos servem. Podemos culpar a falta de tempo pelo fato de não sabermos nada sobre a vida dos que trabalham conosco, dos que cuidam da limpeza de nossas casas, da higiene e alimentação de nossos filhos. Mas muita vezes o que nos falta mesmo é interesse, curiosidade legítima, disposição para ouvir o que têm para nos contar aqueles que de fato erguem e mantêm cidades, países e impérios.

Reivindicamos mais igualdade social, votamos em candidatos que defendem a inclusão social, valorizamos empresas que praticam responsabilidade social, mas simplesmente ignoramos quem tão ardorosamente dizemos defender. 

Simplesmente não enxergamos aqueles que abrem as portas pelas quais entramos, que preparam a comida que comemos, que sustentam o teto sob o qual nos abrigamos. A quantos passos estamos, assim, de ser eloquentes democratas públicos e secretos déspotas domésticos?