25-06-2009

Adoçar-se

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Como a maternidade pode muitas vezes mudar as mulheres e a gente. Tenho uma prima, artista plástica, que antes esculpia serpentes. Fazia visitas frequentes ao ofidário. Em vez de peixes no aquário, tinha cobras em vidros curtidos. Pintava quadros escuros que adornavam quartos sombrios. Era a treva em seus gostos góticos e apartamento. Mas de repente, quando nasceu a pequena menina, as cortinas se abriram para uma luz recém-nascida.

Ela limpou a casa, transmudada em lar. Pouco tempo teve depois para pintar, mas pintou quase um aparelho completo de café e de jantar. E de chá de camomila. A porcelana branquíssima comida, e derramada de flores e frases solares: bom dia, flor do dia! – era assim que amanhecia. Ela me presenteou um prato onde de alegria também componho meu repasto repentino.

Não se pode dizer que ocorre com todas, mas já vi muito dessa metamorfose à força de um nascimento desejado ou inesperado. Conheci uma mulher que era só amargura. Solitária, julgava-se triste figura. Fazia intrigas com quem e sobre quem não lhe agradava ou até se lhe apetecia. Outra vivia de tentar vencer as rivais com as quais dividia o homem que julgava o seu bem, mas homem que não amava nenhuma mulher, só a si e constituía harém.

De repente, com o nascimento dos filhos, transfiguraram-se. Reconciliaram-se com o mundo e até com os supostos inimigos. Como se invadidas de humanidade súbita, passaram a cultivar amizade com os que antes travavam disputa. Como se fossem atrás de reparar e corrigir-se.

Mas compreendo bem como se dá isso. A maternidade nos parece tão grande milagre e dádiva, ficamos de tal forma propensas  ao amor e às lágrimas. Somos tomadas de surtos absurdos de generosidade, como se no rosto de cada um que ri ou sofre víssemos a face de nossos próprios filhos.

Sim, eu sei: arremedos de Nossa Senhora, reminiscências arraigadas de cristianismo. Reconheço: idealizo. Mas algumas mulheres não degustam o amor legítimo senão assim, com um bebê ao colo. Os gregos gostavam de dizer que as mulheres que não experimentavam o consórcio da carne passavam a sofrer de histeria. E se não eram mães, por conseguinte.

A medicina conta que mulheres que não geram são mais sujeitas a tumores de mamas e útero. Claro que sei que ser mãe não é tudo. Que muitas podem passar feliz e tranquilamente sem a maternidade. Eu, porém, sou daquelas que, antes de um filho, estava em metade. Que está a adoçar-se, a reconciliar-se consigo. Antes de ser mãe, tinha feito uns versos assim, que se não foram a mim destinados, caberiam bem em mim:

É tão só e a vontade de ser mãe está tão lá/ que leva carrinhos de compras pra passear./ No parque ou na pracinha, /sozinha,/ estaciona entre carrinhos de bebê,/ que ninguém vê.

18-06-2009

BLOGAGENS

sisifo.jpgOs trabalhos domésticos são nosso castigo de Sísifo.

Sísifo é um personagem da mitologia grega, condenado por toda a eternidade  a rolar uma grande pedra com suas mãos até o cume de uma montanha. Toda vez que ele estava quase alcançando o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo.

Síntese do esforço inútil, louça que se multiplica na pia da cozinha,  casa que não se varre sozinha, refeições a preparar todos os dias...

02-06-2009

Árvore de beira de estrada

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Durante muito tempo guardei o sentimento de que eu era como uma árvore de beira de estrada. Que assistia, inerte, passarem tropas e boiadas, carros velozes, os melhores amigos que sempre seguiam para longe, tão sedentos quanto eu de caminhadas. Eu plantada ali, vergando ao encanto dos ventos, empoeirada. Não sei por qual motivo – eu esboçava gestos de partir, eu farfalhava os galhos – mas algo maior do que o meu desejo declarado de mudar me retinha, e aprofundava os meus vínculos, como raiz obstinada à procura de água. E a poeira sobre a minha pele ia formando grossas camadas.

Essa questão ainda não está resolvida – não devo mentir. Ainda me repreendo por não ter conseguido ir embora, de cidade, de estado, de país. De muito guardo essa sensação, inconfessa para tantos e verdadeira para demasiados, de que nasci no oco do mundo. Como diabos vim parar aqui? Sei que fiz escolhas, mas preservo a sensação de que fui escolhida.

Observo pessoas como meu pai, espécie rara de gente, perfeitamente adaptada e integrada ao meio. Ele nasceu na roça, se criou na roça, é feliz ali, onde mora ainda com seus 75 anos. Olho para ele, até hoje, magrinho, cabelo branquíssimo, montado no cavalo, satisfeito. E fico pensando que ele nunca desejou sequer por um segundo ter outra vida senão aquela que sempre teve. Diferentemente de minha mãe, angustiada, insatisfeita, como de resto parecem ser todas as mulheres.

Não que meu pai não tenha suas angústias, mas elas se referem a uma vaca que foi pro brejo e não que atolou na panela, a uma colheita ruim por causa dos humores de São Pedro, às dívidas com os bancos nos financiamentos agrícolas. Mas me parece que nunca passou pela cabeça dele que pudesse ter uma outra vida, em outro canto. Aliás, em sua simplicidade, se atina que cidades, estados e países são diferentes, parece não querer saber ou se importar, por exemplo, que Paris seja uma cidade e França, um país. Tudo é simplesmente o estrangeiro, lugar amplo e abstrato, com gente estranha, costumes um tanto absurdos, que fala uma língua enrolada, verdadeira algaravia. Um lugar longe e muito pior do que aqui.

Arrastado poucas vezes ao litoral, ele demonstrava uma vontade evidente de voltar pra casa. Já pensei em dar a ele um globo terrestre e mostrar: pai, aqui é que eu vou viver, mas concluí que seria uma abstração grande demais para ele. Até porque já acho mesmo que nunca viverei em outro lugar. Posso até ir, passar, viajar, mas não quedarei. Na única ocasião em que cheguei a partir ( ou que"cheguei ao partir)", com uma intenção vaga e angustiada de ficar, fiquei pouco e perdida, e confusa. A gente se leva na mala, dizia um velho amigo. Mala sem alça. Voltei, me trazendo na bagagem, pesada. Felizes os que, como meu pai, não inventam Pasárgadas. Que não fantasiam sair de casa para fugir de si. Mas algo aprendi com essas tentativas de mudança ou fuga: há delícias em ter raízes profundas. Champanhe é bebida gostosinha, mas é bom ser caipirinha.

Pode haver explicação para esse permanecer. Diz-se na cultura popular que onde uma pessoa tem enterrado o seu cotoco de umbigo é ali que irá viver por toda a vida. O meu foi enterrado no meio de um antigo curral, aos pés de uma cruz que ruiu. E o do meu filho – oh, ironia e repetições de família! – entreguei a minha mãe para que o plante nas cercanias da mina d´água que dessedenta a fazenda, ao pé de uma cruz que ainda se sustenta, forte. Há gente que não é feita para ser forasteira. Há cordões e madeiras que não aceitam corte.