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10-04-2011

A classe dos retardatários

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Há algum tempo, escrevi uns versos assim: “Te conhecer me vez ver que chego atrasada sempre/ E que meu amor por você nasceu sol poente”. Fatos e fases que motivaram esses versos à parte, ultimamente ando pensando que esse negócio de chegar tarde, atrasada sempre, é um mal de família, ou talvez não tanto um mal, mas uma característica minha e dos meus.

Num tempo em que todos têm pressa, em que a juventude é tão valorizada e obsessivamente cultivada, em que pessoas muito jovens realizam tantas coisas, uns atingem aos vinte poucos anos o sucesso profissional, outros se casam e têm filhos  ainda tão verdes, muitas vezes fico pensando que as coisas para mim acontecem tarde. E há alguns dias, conversando com uma amiga e uma prima que andaram participando da tal Constelação Familiar, um tipo de terapia que identifica padrões repetitivos de comportamento ao longo de gerações,  comecei a observar que em minha família,  alguns padrões se repetem,  que todos ou quase todos são um pouco “tardios” ou retardatários.

Minha mãe mesmo costumava dizer que se casou tarde, moça velha para a época dela. Tinha 26 anos quando se casou com meu pai, num tempo em que as moças costumavam se casar com 15 anos, muitas vezes antes. Meu pai também tinha 26 e eu, filha temporã, caçula de quatro irmãos, só fui nascer quando minha mãe já estava com 37.

Meu pai também era considerado um “tardio”. Muito lento, excessivamente calmo, nos gestos e na maneira de falar, sempre foi alvo de piadas e brincadeiras dentro da família dos Nania, uma família de fala mansa e mansa em essência. Vagaroso, dono de um ritmo todo seu, às vezes enternecedor e divertido, outros exasperante, estava sempre plantando a roça, quando os outros estavam colhendo a lavoura. A exacerbação da tranquilidade.  Ou seja, frequentemente perdia o tempo certo de plantar e sofria depois com os males do clima: chuvas ou sol em demasia.

 Mas como dizia ele mesmo ou um tio, não sei ao certo: uns almoçam mais cedo, outros almoçam mais tarde, mas no fim todos almoçam. Maneira bem humorada de encarar a constatação de que cada um tem seu tempo, seu ritmo. Meu pai, com sua calma inigualável, é acima de tudo um otimista. Um otimista que a vida toda nos fez chegar atrasados às festas. Era otimista demais para acreditar que elas já pudessem estar terminando.

 E observando agora essa característica, vejo que ela se repete com outros da família. Tenho, por exemplo, um irmão, que, viúvo, pai de dois rapazes já com mais de vinte anos, agora, já com 50 anos, casou-se de novo e vai ser pai novamente de uma menininha. Meu outro irmão, também beirando os 50, decidiu voltar para a faculdade de Engenharia Civil, que abandonou quando bem mais jovem. E eu mesma acabei por ser mãe quase com a mesma idade que minha mãe tinha quando me gerou.

Às vezes não é muito fácil lidar com isso. É comum eu ter a sensação de que pertenço à classe dos atrasados. Quando eu ainda cursava o primário, era comum ter nas escolas uma sala em que ficavam os alunos mais velhos, que entraram tarde na escola ou que haviam sido reprovados. Eram os repetentes, os atrasados. Por outro lado ou talvez para confirmar minha sensação de retardamento, não me sinto jamais com a idade que tenho, já me aproximando dos 40. Vejo-me fazendo coisas e descobertas próprias dos bem jovens.  Não me dou mais do que 25, mentalmente e em vivência, claro.  Sinto que tenho muito ainda por fazer, por realizar.   E o prazo de uma vida será suficiente para um retardatário? Retardatário ou retardado?

Espero que sim e, para reforçar minhas esperanças, lembro que em minha família, se não somos precoces, se não somos pessoas à frente de nosso tempo (talvez estejamos sempre aquém dele), somos longevos. A longevidade tem sido até agora uma característica predominante, ao menos no ramo paterno. As grandes orelhas da maioria dos Nania o atestam. É crendice popular dizer que  quem tem orelhas grandes vive muito. Vivem muito justamente porque são vagarosos? E são vagarosos justamente porque custa carregá-las? Ou será porque, com orelhas tão grandes, ouvem muito,  ouvimos demais, ouvimos tanto que ficamos confusos e demoramos excessivamente a tomar decisões?

P.S: Minha irmã, que a seu modo é também uma retardatária, não concorda comigo, porém. Não acredita que se trata de um padrão de família, mas muito mais de um fenômeno de nossa época. As pessoas estão se casando mais tarde, tendo filhos mais velhas, saindo tardiamente da casa dos pais e, claro, vivendo mais. Também faz sentido. Quando Balzac escreveu sua "Mulher de 30 anos", não se ousava pensar que uma mulher pudesse amar após os 20. Hoje, como já ouvi por aí, as quarentonas de agora são as balzaquianas das antigas gerações.

03-04-2011

Aos solitários, as batatas! Aos adoentados, as cebolas!

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Você anda adoentado, triste, deprimido? Já experimentou a terapia da cebola? Não, ela não consiste em cortar cebolas, numa cerimônia exótica, para invocar o deus adorado do choro, seu sumo de ácido sulfúrico como um pretexto para fazer verter as lágrimas represadas. Se bem que isso pode ser uma boa, vá lá. Às vezes a nossa angústia está trancada e só mesmo um filme daqueles bem melosos, uma velha canção ou até mesmo uma cebola bem descascada e bem fatiada para nos fazer abrir as comportas.

A terapia consiste simplesmente em colocar na cabeceira da cama, junto com o livro da ocasião, a versão preferida do evangelho e quiçá o ansiolítico (como se batiza hoje o antigo calmante ou sonífero), um prato com uma cebola cortada.

 Noite passada, resolvi experimentar a terapia cebolística, seguindo indicação de uma psicóloga com que me consultei. Há muito tempo sofro com gripes constantes, dores de garganta e tosse. É como se eu nunca me restabelecesse completamente. Até cheguei a dizer, para horror dos especialistas em otimismo e em programação neurolingúistica, que um dia é da gripe, outro do resfriado, um da doença, outro da convalescença. E nem é preciso ser imunologista, psiquiatra ou psicólogo para supor que esse estado deriva de um processo de estresse que se agravou nos últimos meses. Au revoir, qualidade de vida e imunidade! Ou até breve!

            Segundo a psicóloga, a cebola “chuparia” todas as bactérias ou vírus que eventualmente me acompanhassem. O fato é que depois de já ter tentado alguns tratamentos, entre eles uma vacina, um lizado bacteriano, que deduzo, seja um bombardeio de bactérias para acordar as defesas do organismo, resolvi experimentar a terapia sugerida, pensando que se bem não fizer, mal não vai haver. Exceto, claro, o inconveniente do odor, que mal faria ter ao lado da cama, no criado surdo-mudo e sem olfato, um prato de cebolas cortadas em rodelas?

Surpreendentemente, posso dizer, malgrado a catinga, tive uma noite bem mais agradável dos que as anteriores. Efeito certamente da própria sessão com a psicóloga, ocasião em que desaguei um rio inteiro. Quando terminei a sessão, ela, aliás, me disse, “talvez você melhore agora que falou e chorou”.  Realmente: a alma está menos congestionada. A garganta inflamada eram talvez também palavras entaladas? E o rio de secreções eram lágrimas represadas? E como cantaria Roberto Carlos, tantas, tantas emoções transmutadas em catarro? Mas ao final deste texto volto a falar disso, porque afinal a cura do corpo e da alma é, muitas vezes, uma e a mesma coisa.

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 Poesia terapêutica - O fato é que acordei me sentindo um pouco melhor e não pude deixar de rir ternamente ao contemplar o prato de cebola ao lado da cama. Achei-o deveras poético. Poético, porque sempre vejo poesia no ambiente e nos ritos domésticos, nos legumes, nos utensílios de cozinha, nas especiarias. Talvez por isso mesmo, em priscas eras, escolhi para meu blog o nome de Almofariz. Não sou muito chegada a cozinha, mas para preparar uns antepastos de  poesia e não para cozinhar, ela bem serve. Inspirada no mundo dos cuidados e descuidos domésticos, dos afazeres e dos não fazeres, dos zelos e dos desmazelos, escrevi o que considero uma das minhas frases mais geniais, com perdão do exagero e da nenhuma modéstia: “solidão é quando as batatas brotam na geladeira”.

              Pois as cebolas, como as batatas aos vencededores (ou serão perdedores, solitários e prisioneiros de calabouços e convés de navios?), sempre dão e deram, além de saborosos e estéticos pratos, interessantes histórias e metáforas: as cebolas, as réstias e dentes de alho, a pimenta do reino, com suas aventuras de navegantes em busca de especiarias. Cravos da índia, nem se fale.

No livro de Dostoiévski, Os Irmãos Karamazov, há um trecho em que a personagem Grúchenhka conta uma antiga lenda russa. Um anjo tentar evitar que uma mulher muito má afunde no lago do inferno e, para isso, lembra a Deus que um dia ela teve um gesto de bondade. Arrancou da horta uma cebola e deu a um mendigo. Deus manda que o anjo pegue tal cebola, dê a mulher para que ela a segure e assim se salve do poço. O anjo a puxa com cuidado, mas outros pecadores se agarram a ela para se salvar também. A pecadora, porém, lhes dá pontapés, dizendo que ela é que está sendo salva e não eles. Assim, a cebola se parte e ela acaba se afundando no lago do inferno, para tristeza do anjo.

Sei que aparentemente essa história nada a tem a ver com a terapia da cebola, exceto talvez pelo fato de que associação com o inferno, com o demoníaco é compreensível, já que o ácido sulfúrico deriva do enxofre e convenhamos: cebola, vai feder assim lá no inferno!  Mas nesse nosso tempo de hiperlinks tão facilitados, fiquei tentada a sair navegando à procura de associações, de histórias relativas a cebolas, que se não comprovassem a eficácia da excêntrica terapia, ao menos me mostrassem de onde que é que a psicóloga tirou isso e, claro, que dessem livre curso a minhas divagações poéticas.  Encontrei coisas muito interessantes, relatos sobre as propriedades terapêuticas das cebolas, seu uso milenar por curandeiros, referências a seus poderes para desintoxicar o sangue, propriedades antibacterianas e antissépticas.

As tumbas egípcias estariam repletas de pinturas de cebolas. Eles, aliás, teriam o costume, ao fazer uma promessa, de colocar a mão sobre uma cebola. Antigos escritos hebraicos revelariam que teriam sido um dos alimentos pelos quais os judeus ansiavam após a saída do Egito. Alexandre, o Grande, também teria fornecido enormes quantidades de cebola a suas tropas para fortalecê-las antes das batalhas.

Encontrei também, num site sobre terapia com florais, relatos de gente que teria evitado contrair uma gripe que arrasava populações porque tinha o hábito de espalhar cebolas pela casa, e mesmo a narrativa de uma mulher que teria se curado de pneumonia grave, com auxílio do curioso método. A mulher acordou melhor e a cebola, enegrecida.

Todos esses textos acabaram por me fazer crer que a terapia pode ter realmente alguma eficácia. Ainda que seja o efeito placebo, tanto faz. O que importa é o bem que ela nos traz.  De qualquer forma, colocar aquele prato de cebola ali ao lado da cama, acordar com ele, temperou meu dia, fez-me pensar que às vezes pequenos gestos, recheados de simbologia, são realmente terapêuticos.

De algum modo, o gesto poético-terapêutico e a própria sessão com a psicóloga me fizeram ver o quanto em mim está obstruído, que necessito livrar-me daquilo que me intoxica, dos micróbios, das más lembranças que me envenenam. Não adianta simplesmente tentar negar sua existência, esquecê-los, silenciá-los, pois eles continuam ali, ocultos, trabalhando entre sangue e trevas.

            De certa forma, me agarrei a tal cebola como a uma tábua de salvação e transferi para ela, para estas divagações, para este texto, ao menos parte daquilo que me adoecia. E usando a lenda russa como lição, resolvi compartilhar, afinal ninguém pode se curar, ao corpo e à alma, e se salvar, claro, sozinho.

 

P.S: Se for tentar essa terapia, não aproveite a cebola para preparar o almoço. Algo me diz que não é uma boa idéia.

08-03-2011

Em mulher se bate com flor

 

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           Tenho uma conhecida que foi espancada por um vaso de margaridas. E outra que levou uma boa sova com um botão de rosa. E nessas datas comemorativas, dia das mães, dia internacional da mulher, só não apanha melado quem não quer. É um tal de distribuir rosa avulsa, um tal de reportagem rosa-melosa na TV, mostrando mulher frentista de posto de gasolina ou em outras ditas profissões masculinas, passando batonzinho, pra não perder  o charme e o clichê.

             Sempre que se vai mostrar a participação incomum ou minoritária da mulher em alguma atividade ainda  ou supostamente convencionalmente masculina, está lá a pobre pagando o mico de retocar a maquiagem ou pentear os cabelos, para dizer, em redundância que “não perdeu a feminilidade” e que sempre “arruma um tempinho para a vaidade”. Ainda que os cabelos da frentista estejam ocultos sob o boné – o repórter trata de descobri-los –, ou que passar o batom olhando-se no retrovisor do carro seja algo banal e rotineiro para todas as mulheres, não uma peculiaridade das pilotos de rally, esses gestos são promovidos a representação de gênero. E a vaidade é considerada um atributo essencialmente feminino, como se não tivéssemos chegado ao tempo dos metrossexuais.

            Não se veem, por outro lado, reportagens sobre homens executando atividade tipicamente feminina que elejam como representação de gênero o momento em que interrompem a atividade para se coçar. Não me lembro de ver matérias sobre cabeleireiros que, a despeito de modelar cachos, continuam cabras machos.  Ou sobre cozinheiros, rebatizados chefes de cozinha, mostrando que o homem pode trabalhar com ternura, não deixando assim de endurecer.

            Diz o ditado que mulher não se bate nem com flor, pois muitas vezes é com flor que nos batem. Com esses diminutivos, rosas entregues no dia internacional da mulher, acompanhadas de frases manjadas e vazias – a eles, o trono; a elas o altar - , que nos menosprezam, espancam e nos querem matar ou calar. Nada contra receber flores e sentimentos, mas agradecemos se vierem acompanhadas de um bom aumento. A gente não quer flor, nem rima pobre, meu amor.  A gente quer cobre, querido, que da última vez que flor encheu barriga, o resultado foi visto nove meses depois.           

            A propósito, lembro-me de uma colega de trabalho que foi pedir um aumento salarial ao chefe e recebeu dele a seguinte resposta carregada de ironia: “você ganha pouco, mas também gasta pouco, tem poucas despesas”. Ora, aquela ninharia era mais do que suficiente para comprar seus alfinetes. Como se nossos salários hoje custeassem ainda apenas rendas e fricotes, fendas e decotes. Justamente quando pesquisas mostram ser cada vez maior o número de mulheres chefes de família, que continuam ganhando, no entanto, salários menores do que seus companheiros de atividade.

 

            Texto escrito e publicado originalmente em O Popular em 2009. Mas de lá para creio que não há nada de muito novo sob o sol, exceto talvez pelo fato de que hoje há uma mulher na Presidência. Porém, mulheres nos cargos de chefia ainda são minoria. Será por quê? Será que nos faltam competência, ousadia ou ciência de nosso valor?