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30-08-2007
Perícia

Hoje, para expressar-se, é requerida muita perícia, cirúrgica e lingüística. Um caso infeliz de expressão pode redundar em caso de polícia e detenção. Principalmente se tratamos de minorias, tão amplo conceito, criado para combater preconceitos e reparar injustiças. Qualquer um se enquadra na categoria dos humilhados e ofendidos, a ser compensados e protegidos, até frascos e comprimidos. Nós mulheres, por exemplo, somos minoria embora sejamos maioria. Vá entender isso. Atinar, não atino, mas bem que me beneficio. Não interessa se por quota, o importante é passar pela porta. Do Palácio.
Outro dia, moradora de um prédio no Rio se estranhou com o vizinho, que, por acaso era síndico. Entre rusgas e impropérios, xingou o cara de invertido, assim com outros adjetivos que não emprego por pundonor do leitor e sobretudo por temor de processo. Gritou muito bem reforçado que ele transformava em lazer a área de serviço.
A briga foi parar nos tribunais. O juiz, sensível e politicamente correto, deu ganho ao ofendido, afinal, o que se guarda na garagem só ao dono interessa e ele não estava ali pra julgar se isso ou aquilo é preferência ou desvio. Mandou a ofensora desembolsar seiscentos reais. Ela, porém, inconformada, queria provar não estar enganada – não se tratava de calúnia ou difamação, mas de pura verdade – solicitou uma perícia na parte de trás do vizinho. Acabou pagando mais. Oito mil reais. E um mico.
Como o mico não foi comigo, lembrei-me da onda do politicamente correto, que já deu tombos em amigos, cá bem perto. Há certo tempo, um colega jornalista foi surpreendido por um comunicado raivoso pregado nas paredes da assessoria de comunicação onde trabalhávamos. “Fulano, converse comigo sobre isso”! Uma seta pontuda apontava para o título de uma nota que seria enviada aos jornais no dia. Onde se lia: tapete preto. Sentimos, nós, os colegas, um estremecimento de medo.
O chefe sicrano estava fulo da vida. Como um representante legítimo das minorias coloridas, não aceitava aquela expressão pejorativa sobre raça.
“Mas a nota fala sobre o asfalto pretinho e novinho que chega às ruas da cidade. Um tapete de tão liso”.
“Pois, nós, por aqui, não admitimos expressões homofóbicas ou racistas. Preto é uma palavra que tem sempre uma conotação discriminatória e ofensiva. Como a situação está preta! Há algo mais preconceituoso que isso? E o buraco negro? E o gato preto que passa debaixo da escada?!”
O título foi cortado. Uma injustiça datada de séculos foi reparada.
Eu, que não queria pertencer à minoria dos desempregados, enfiei meu pretinho básico no saco e desde então cortei a palavra preto de meus textos e dicionário. Aqui, só a utilizo em intenção crítica.
Falar e escrever hoje em dia é atividade de risco, é operar com precisão a língua, proceder a melindrosas cirurgias. Além de andar com bisturi afiado, tenho uma pinça bem aguçada em meus ouvidos. Ai, se no meio do tráfego, algum porco chauvinista grita: minha tia, vai pilotar fogão! Ah, se não ajeito a minha vida, se não lhe arranco o fígado e um milhão. E cozinho o sutiã na sua cara.
10:40 Permalink | Comentários (4) | Enviar por e-mail
20-08-2007
BLOGAGENS
Perguntinhas que não querem calar.
1 - Castigo de Deus
Por que esses artistas famosos, já consagrados, aceitam gravar comerciais de qualquer tipo de produto? Não acredito que seja simplesmente por dinheiro. Alguns deles já ganham milhões, com seus discos e shows. Por exemplo, há o caso de um famoso cantor da terra, que fazia comerciais para uma financeira, estimulando os velhinhos a se endividar com aqueles malditos empréstimos. O cara já tem uma fortuna. Duvido que precise ganhar mais grana. Onde enfia a tal da responsabildade social? Será que ele não pensa no poder que sua imagem tem sobre as pessoas, que anunciando determinados produtos pode arruinar a vida delas? É por isso que digo, quando vejo certos cantores, principalmente sertanejos, reclamarem dos prejuízos com a pirataria, que isso acontece "por castigo de Deus". Quem mandou encherem os ouvidos da gente com tanta porcaria? E não falo apenas da música.
Há também o caso de um ator aqui da terrinha, que já vive no Rio há algum tempo, mas que volta e meia anda na cidade. Pois está no ar um comercial em que anuncia as vantagens fantásticas de mais um maravilhoso loteamento. Mais um? E esses loteamentos, sabemos bem o que são.
2 - Nossa nudez, nossa desfaçatez.
Por que a Playboy sempre convida para posar nas suas páginas mulheres envolvidas com algum tipo de escândalo? Já aconteceu daquela vez com a fogueteira do Maracanã. Agora, novamente, com a tal da Mônica Veloso, envolvida no escândalo Renan Calheiros. Tudo bem, eu sei, revista de mulher pelada traz sacanagem, não precisa se sujeitar a qualquer regra moral, mexe com o que há de mais interdito na imaginação, com as taras, com as fantasias. E, além disso, só tem compromisso com o próprio lucro.
Mas - ponte que partiu! - dessa vez a peladona está envolvida em um escândalo político. Quem vir a bonita nas revistas vai querer .... vocês sabem o quê, mas a sensação que tive quando fiquei sabendo que ela iria sair na Playboy é que a revista está mandando o Brasil se fuder!
Será que em outros países também ocorre o mesmo? Mulheres envolvidas em escândalos políticos vão parar peladas nas páginas de revistas? A Mônica Lewinsky, que não fez um filho, mas fez muitas outras cositas com o Bill Clinton, que eu saiba, não saiu nua nas revistas dos Estados Unidos. Parece que o que fez foi abrir a sua própria loja de bolsas. O que não deixa de ser simbólico.
A impressão que tenho, portanto, é de que no Brasil, até nossas revistas de sacanagem refletem a sacanagem vigente. Até nossa nudez é um sinal da nossa desfaçatez. Revista pornô não precisa ter moral. A moralidade é plural. Mas a ética, essa, qualquer um, pessoa, revista, instituição, precisa ter. Ética é uma só.
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18-08-2007
Canjinha II

Quando menina-lamparina lá em Pontalina, minha mãe me arrastava às procissões – coroar, não coroei a santa –, não pertencia a tamanha importância, integrava a massa infantil das multidões. Assim mesmo atirava pétalas de rosa à imagem e pisava tapetes de flores na passagem. Cheia de contrariedade, de desfazer bordados com perfume e cuidado, nas calçadas tantas vezes descalças, elas e eu.
Mas o que mais me aborrecia é que inveja tinha de não me vestir de anjo, de camisolão, com que iam os meninos da diretoria e primeiro escalão. Camisolões azuis celestes, rosa espinho ou amarelo bebê e asas brancas de doer! Verdadeiro buquê de serafins. E eu perguntava a mamãe por que diabos não tinha asas eu só pra mim?
Ela dizia, pra sarar inveja, que anjinhos pagavam promessa. Seus pais os vestiam assim, porque contraíram doença, mas por reza e penas da santa, não tinham virado canja de anjo lá no céu. Eu devia me conformar, portanto. Até me dava deliciosa morbidez saber que, por sorte, de ser anjo não chegara minha vez.
Porém, oh, obsessão! Figuras de anjos, caídos ou não da escada, perseguiram-me vida afora como Legião. Talvez por isso tenha me tornado encapetada, pirracenta, bicho do mato. Se não posso ser um anjo, serei o contrário. Se asas não tenho, pegarei o cão pelo rabo.E se aos pais dei trabalho, mui bom emprego fizeram das chineladas.
Arranjaram até um velhinho rezador de cobras e capetas pra me benzer contra as rabugices de criança envelhecida antes da vida. Eu me escondia atrás da casa, de telha que bem não bate, debaixo do sofá de napa e na capa de batman do pé de abacate. Quanto mais o bruxo passava o raminho de arruda na minha cara, mais birrenta me tornava. E com mais raiva. E mais a velhice se cravava lá no fundo da criança que eu ainda aparentava.
Como eu blasfemei. Como meus demônios se esgoelavam. Quanto me custou exorcizar mais tarde a infância que perdi na primeira idade. Incalculáveis terapias e cápsulas coloridas, alegrias capciosas e outras heroínas-mulheres-maravilhas da moderna medicina seriam necessárias para arrancar a criança endiabrada.
Tudo tão mais simples seria se, em vez de reza, me dado tivessem um par de lápis. Com eles eu teria, de um só traço, asas e harpa. Nem carecia de caderno. Que sobre os muros caroquentos de igrejas ou cemitérios, eu riscaria minha baba verde e anjos eternos.
Agora eu os risco. Toda sorte de criaturas aladas trago comigo. Reproduções cafonas nas paredes do quarto. Cerâmicas, miudezas, quinquilharias. Falanges inteiras em surubas e concertos oníricos. Penas que voam quando ventam as cortinas e dobram-se os sinos dos travesseiros. E nos textos, criaturas, menos humanas do que divinas.
Porém, com nada se conforma uma criança e até hoje tenho esperança de carregar asas também.Que os anjos tão cedo não digam amém. Hoje sei que não se compra indulgência, nem com penas se paga penitência, ou lugar ao lado direitíssimo do deus pai. Mas as asas, para sorte e sem risco de morte minha, sem procissão e ave-maria, essas posso comprar, em dez vezes e sem ex-votos, no mastecard. Na lojinha de fantasias ali da esquina, onde de tudo se pode ser e trajar, e onde se ouve de chusmas o linguajar.
13:40 Permalink | Comentários (3) | Enviar por e-mail
17-08-2007
Canjinha

Quando menina-lamparina
lá em Pontalina,
minha mãe me arrastava
às procissões
– coroar, não coroei a santa –,
não pertencia a tamanha importância,
integrava a massa infantil das multidões.
Assim mesmo atirava pétalas de rosa
à imagem
e pisava tapetes de flores
na passagem.
Cheia de contrariedade
de desfazer tapetes bordados
com tanto perfume e cuidado
nas calçadas tantas vezes descalças,
elas e nós.
Mas o que mais me aborrecia
é que inveja eu tinha
de não
vestir de anjo
de camisolão,
com que iam os meninos
da diretoria
e primeiro escalão.
Camisolões azuis celestes
rosa espinho
amarelo bebê
e asas brancas, brancas, brancas,
verdadeiro buquê
de serafins.
E eu perguntava a mamãe
por que diabos
não tinha asas eu
só pra mim?
Ela dizia,
pra sarar inveja
que anjinhos pagavam promessa.
Seus pais os vestiam assim,
porque contraíram doença,
mas por reza e penas da santa
não tinham virado canja
de anjo
lá no céu.
Eu devia me conformar, portanto,
e até me dava morbidez
saber que, por sorte,
de ser anjo
não chegara
minha vez.
Mas com nada se conforma uma criança
e até hoje tenho esperança
de carregar asas também.
Que os anjos cedo, porém,
não digam amém.
Sei agora que não se compra indulgência
nem com asas se paga
penitência,
nem lugar
ao lado direitíssimo
do deus pai.
Mas a fantasia
- para sorte
e sem risco de morte minha,
sem procissão e ave-maria,
essa posso comprar
em dez vezes
e sem ex-votos
no mastecard.
15:25 Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail
16-08-2007
Em bons lençóis

Hoje me encontro
em bons lençóis.
Já não durmo a insônia
dos que sonham sós.
Não seco a dor na fronha,
não me reviro no virol.
Não mais acorrentada
aos pés da cama,
atrás da porta,
sofrendo Elis
Regina
e tanto quanto se imagina
quando se pensa morta.
Não mais
sepultando-me no quarto,
com todas as luzes apagadas,
e caixas caixas caixas caixas
forjando presentes que eu me daria.
Eu ali, cápsula,
alegria capciosa
nas caixinhas cor de ro...
Hoje, só rosas
e o cheiro fresco
das laranjeiras
nas roupas novas.
E joaninha,
que entre dois
se aninha.
11:00 Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail
07-08-2007
O fabuloso mundo das calcinhas

Fabuloso e injustamente explorado o mundo das calcinhas. Nunca ganharam uma campanha publicitária, como aquela célebre: “o primeiro sutiã a gente nunca esquece”. Naturalmente, pois, afinal, qual de nós se lembra da primeira calcinha? Éramos pouco mais do que um molde de gente, quando as fraldas foram substituídas por elas. Vamos fazer-lhes justiça. Podemos nos vestir como verdadeiros caminhoneiros, mas ali por baixo de nossa armadura, ela reinará: a calcinha, nossa marca, exclusivamente feminina. Nossa identidade.
A lembrança mais remota de que tenho de uma calcinha em minha vida era daquelas com as quais costumava se embonecar as meninas, no tempo em que, para o bem e o mal de bonecas, devíamos trajar cores suaves, bordadinhos, babadinhos e saias bufantes – e não as roupas de mulheres em miniatura de hoje. Tinha rendas no bumbum e com ela vivi um divertido episódio da infância na fazenda, de que me recordo mais pela imaginação do que pela memória.
Minha mãe e irmã, para se divertir às custas da minha pequenez, estumavam o vira-lata atrás de mim. Parecia enorme a distância entre a varanda da casa e a porteira. Eu corria, o cachorro disparado atrás. E quando finalmente, com minhas pernocas curtas, alcançava as primeiras tábuas da porteira, o cãozinho já estava lá dependurado nas rendas, rosnando. Eu abria um só berreiro.
Mas, exceto por esse episódio, nunca tinha reparado muito nelas, não lhes dava mais atenção do que às meias. Usava o que minha mãe me comprava, sem ligar a cores ou modelos. Apenas tomava o cuidado de não usar uma calcinha furada quando saía de casa, pois, como ela dizia, a gente nunca sabe o que pode acontecer. De repente, tem uma sapituca no meio da rua e fica com os fundos de fora. E ainda, quando vestia roupa nova e calcinha velha, ela advertia: por fora, bela viola, por dentro, pão bolorento – ditado que servia também para nos ensinar o cuidado com nossa higiene pessoal e nossos sentimentos.
A chegada da adolescência coincidiu com uma importante descoberta, propiciada por uma prima mais velha, moça feita. Foi ela a responsável por ingressar num novo mundo, em que as calcinhas deixaram de ser apenas uma peça de vestuário, para ser promovidas a signos. Dizia-me a prima que em uma casa onde houvesse moças solteiras, era bom ter sempre dependurada no banheiro uma calcinha preta ou vermelha. Onde já se viu isso?! Mais tarde eu aprenderia que esse hábito é não só mau gosto ou má educação, como calcinhas pretas e vermelhas podem ser mesmo um indício de outra coisa.
Aprendi também que não apenas as cores têm variados significados. Modelos e tecidos dizem muito sobre suas donas e intenções. Calcinhas de malha de algodão, confortáveis, recomendadas pelos ginecologistas; calçolas da vovó, que alcançam a linha da cintura; as de lycra; as rendadas; as fio dental; as comestíveis. Situações envolvendo esses modelos tornam-se muitas vezes verdadeiras anedotas. É clássica, por exemplo, a situação em que a moça, para resistir a ir para a cama com o rapaz em um encontro, usa o paradoxo de uma calcinha gigante. Não resiste, porém, e passa o maior vexame. São bastantes conhecidos também os casos em que não são usadas. Mas este já o fantástico mundo das sem calcinha. Assunto para outra crônica. Ou para revistas de celebridades.
Bunda rica!!!
P.S: Ao pesquisar imagens de calcinhas na internet, encontrei, em um site de vendas de roupas íntimas, a imagem de uma calcinha muito parecida com aquelas que usávamos na infância. Descobri que o nome desse modelo, cheio de rendinhas, é bunda rica. Que modelo será então o de uma calcinha bunda pobre?
16:45 Permalink | Comentários (3) | Enviar por e-mail
06-08-2007
BLOGAGENS
Nosso olho maior que a barriga
Fartura ou desperdício?

Ontem assisti a uma matéria no Fantástico sobre o desperdício de alimentos nos restaurantes. A matéria mostrou os preocupados Chitãozinho e Xororó, donos de uma rede de churrascarias. Aqui em Goiânia, há uma delas, com uma foto gigante dos dois, abraçados ao também cantor sertanejo Leonardo. Trata-se de um ambiente - não me refiro ao local nem à qualidade da comida - que peço licença para ter o direito de abominar. Mas minhas abominações não vêm ao caso aqui.
Gostaria mesmo de falar sobre a reportagem, que mostrou as restrições feitas pela Vigilância Sanitária ao reaproveitamento e doação de alimentos servidos nos restaurantes. As normas são rígidas sim: alimentos servidos à mesa e não consumidos, não podem ser doados, por exemplo a instituições filantrópicas, pois há risco de que tenham sofrido algum tipo de contaminação. Aqueles espetões gigantes que sobram nas churrascarias também não.
E esse ponto mesmo é que os cantores-proprietários questionam: por que não flexibilizar as normas, para que a carne, ainda em boas condições de consumo, seja aproveitada? A reportagem mostrou então que os cantores liberaram os funcionários para comer tanto quanto queiram após o serviço, o que também não solucionou o problema, uma vez que as sobras são muito mais do que eles podem consumir.
Acho justo o questionamento sobre as regras, mas ao assistir às entrevistas, me ocorreu questionar também se esse modelo de restaurante, as churrascarias, caracterizado pela abundãncia, não é um modelo que deveria ser revisto e até mesmo abolido. Agora que todos falam tanto em combater os danos ao meio ambiente, em repensar nossos atos de consumo, por que não refletir sobre esse tipo de estabelecimento que, ao servir fartura, estimula o desperdício?
Afinal, sejamos sinceros, a maioria das pessoas quando paga um rodízio em uma churrascaria, paga para se encher até a borda, recusar comida, não dar conta mais. Se não houver um garçom surgindo a cada minuto com um espetão fumegante, o serviço não é bom. É preciso jogar comida fora, pra valer o dinheiro gasto.
Ignoro se nos países europeus existem churrascarias ou restaurantes similares em desperdício de comida. Não creio, pois o velho continente, que não dispõe da nossa continentalidade e da nossa exuberância natural, já muito padeceu de fome, para não fazer um prato refinado do "arrozd`onté" ou do queijo embolorado. Parece-me que essa cultura do desperdício também tem muito a ver com a fartura dos trópicos.
Por fim, eu que, embora carnívora, não sou nada amiga de churrascarias, acredito mesmo que é muito mais vantajoso e justo pagar por pratos individuais, que em geral vêm com uma quantidade adequada para consumo, ou, melhor ainda, freqüentar os populares restaurantes por quilo. Assim, o olho não fica tão maior que a barriga. E quando a gente estiver com a barriga cheia, se sobrar algum dinheiro, a gente pode comprar comidinha nova para os pobres, em vez de presenteá-los com nossas sobras.
14:45 Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail
04-08-2007
O cão que come flores

O cãozinho come flores. Ele come. Como mastiga qualquer coisa qualquer cão pequeno. Filhotes precisam experimentar o gosto do mundo, para aprender a afastar-se de seus venenos. Ao vê-lo ali no canteiro da larga avenida de Curitiba, por mais poética que fosse a cena, Aline teve pena. Supôs que tivesse fome.
Ela sempre se penaliza dos bichos em abandono. Ela e o namorido Paulo, em gestos de sensibilidade e insensatez – o mar para eles não andava para peixes, talvez para cachorros-quentes e espetinhos de gato –, viviam recolhendo bichos feridos e por aí largados.
Em uma manhã chuvosa em Goiânia, Paulo assistiu ao atropelamento de um cão de rua. O motorista se foi e o animal ficou ali, agonizando. Ele o recolheu a uma clínica veterinária, onde pagou para que fosse sacrificado, já que não havia mais chances de recuperação, só agonia.
Mas a dupla incansável de protetores de animais, se não estava nadando em dinheiros, flutuava em pêlos. Perdi a conta de quantos gatos eles adotaram e tentaram adotar, no pequeno apartamento térreo onde viviam, ainda aqui em Goiânia. Havia muitos gatos abandonados por ali, na aérea comum do condomínio. Pois eles lhes davam comida, compravam remédio. Acolhiam as gatas grávidas para que parissem na área de serviço, mas deixavam a janela aberta para não tolher a liberdade felina.
Quanto não foi o que gastaram tentando salvá-los da vida e da morte aventurosa de gatos vadios. Paulo e Aline levantando-se de madrugada para ir ao veterinário, tentando salvar Monalisa, a gata enigmática que em seus mistérios se foi. O trabalho que tiveram para achar dono para cada um dos filhotes dos quais cuidavam, antes da mudança para Curitiba.
E na nova cidade, na nova vida, Aline quer interromper o passeio para levar o cão que come flores consigo. Liga para Paulo, denunciando o abandono, e ele, de imediato, quer sair do trabalho para empreender mais uma operação de salvamento. Meus super-heróis dos bichanos, dos cães sem dono! Meus super-amigos!
Aquele cão tinha, porém, um dono suposto e suspeito. E para fazer espetáculo, no meio da avenida, aparece um senhor curioso e ruidoso, desses que há nas ruas de qualquer cidade, que se junta em toda roda onde há algo para ser espiado ou discutido. Começa a dar seus palpites. O suposto dono é um morador de rua, aparentemente bêbado. Diz que o cãozinho que mastiga pétalas roxas é do amigo. O curioso senhor discursa que eles não têm condições de cuidar do bicho.
Assim a confusão vai se armando, os moradores de rua ao redor se juntando, em tenso conselho. Os ânimos se acirram. Para piorar, o cão corresponde aos carinhos de Aline, pressentindo decerto o amor legítimo, mas ignora solenemente os chamados do suspeito dono. Aline chega a ligar a sociedade protetora dos animais, sempre ao telefone com Paulo – ele acompanhando-a no drama de tentar salvar os animais das garras humanas. A sociedade diz nada poder fazer, no entanto.
Aline tampouco poderia propor algo, como a compra do animal. Acabaram de se mudar para Curitiba e moram ainda num flat. Diante da tensão do clima, sugiro que a gente siga em frente. Não podemos confiscar simplesmente bichos aos seus donos, como não podemos tomar aos pais negligentes os seus filhos, ainda que os tratem sem carinho. Aline aceita seguir, em prantos. Mas leva flores consigo. Flores que nem o Cão nem o tempo comem. Flores de São Francisco.
10:19 Permalink | Comentários (4) | Enviar por e-mail
01-08-2007
Quem vê pressa não vê perfeição

Em algum tempo remoto do semáforo, provavelmente o vermelho, já fui um desses motoristas impacientes e impávidos, que cortam sempre, inclusive pela direita, estrepitoso, com a buzina de mugido ou trilha sonora de “O Poderoso Chefão” – uma mão nela, outra no guidão.
Possuía pressa. Estava permanentemente prestes a salvar o mundo, a resgatar o pai da forca, como se as coisas mais importantes e urgentes só a mim sobreviessem. E vinham. Pela frente, miseráveis pedestres espremendo-se contra as faixas, eu acelerando para lhes fazer graça. Não lhes permitindo a humilhante passagem, ultrapassando os velhos e gastos, as carroças, as sucatas.
Encostava meu pára-choque no alheio, arrancava urros do motor e gritos de horror. Só minha preferência nas rotatórias. Eles que freassem, os fracos e bobos. À esgueira, cabendo em qualquer parte. Fechando, quando, tentavam, em vão, ultrapassar.
Era demasiado meu amor por carros. Tive os melhores, até daquela fábrica alemã que nos primórdios produziu aviões e que mantém na marca o desenho da hélice. Fruíamos sucesso com as mulheres, elas, de nascença com GPS defeituoso, deslumbradas com o painel de mil luzinhas. Eu lhes proporcionava o céu. Não se importavam que eu morasse lá na vila caixa-prego, não lhes abrisse a porta, não lhes desse os presentes inúteis do respeito e do amor.
Carros não eram para homens como eu o substitutivo para o falo, mas sua ampliação, proclamação para o mundo. E como ficavam ainda mais potentes os amplificadores, quando eu os brindava com boa cerveja, uísque envelhecido, vinho de certa fineza. Convenientemente, eu tinha sempre, atrás dos bancos, garrafa e saca-rolhas reluzente, que desembainhava na hora oportuna, para, junto, sacar-lhes os vestidos e os escrúpulos. Os bracinhos do saca-rolas lentamente se erguiam, como se tomados de assalto ou preparando-se para se atirar em suicídio. A sensualidade da rolha surgindo, o corpo de cortiça embebido em tinto, o espírito do vinho enfim libertado.
Em uma viagem é que se deu o imprevisto. Eu arrancara para um final de semana no lago. A lancha ia atracada no engate. A loira em mim atracada. Ultrapassagem brilhante, as duas faixas amarelas faiscantes, as curvas se oferecendo, fáceis. Algo me fincou a perna. Os bombeiros conseguiram sacar enfim a viga de aço encravada. Mas o pé direito quedou ali, preso, enamorado do acelerador. Mandou-se com o resto, para o ferro-velho.
Assim tomei gosto por carros antigos, ou melhor, velhos, caindo aos pedaços, que já não pagam imposto, variantes, opalões, fuscas no pior de seu estado. Com o dispositivo acelero, calmamente, quando não me ocupo da mudança de marcha. E eles, os fortes, os potentes, os lançamentos do ano, morrem de raiva, quando atravanco o trânsito, quando humildemente roço minha lataria descascada nas suas pinturas brilhantes. Quando trafego, vagarosamente, pela esquerda, porque já não tenho nenhuma pressa de chegar aonde chego.
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