« 2006-05 | HomePage | 2006-07 »

25-06-2006

Talco e tantos alfinetes

medium_carrinhos.gif


Ela é tão só
e a vontade de ser mãe
está tão lá
que leva carrinhos
de compras
pra passear.

Todos os dias,
no parque
ou na pracinha,
ela estaciona
entre carrinhos
de bebê
que ninguém
vê.

medium_beb.gif

medium_carrinho_de_compras.jpg

medium_carrinho_3_copy.jpg

24-06-2006

Impressões de uma fazenda que virou taperão

medium_fotos_taperao_004.jpg

I
Com o tempo,
até o arame farpado,
abandonado
em rolos arrepiados,
vira capim.

O braquiara transforma
em si mesmo
a coisa amada.

Braveza e farpa
num mesmo nó
agora são um só.

E nele
galinhas chocam ovos
e vacas pastam, bocós!

II

Enquanto isso,
dois cochos apaixonados,
em intersecção
trocam o sal mineral das palavras
e as impressões
de seus toscos corações
de aroeira.

III

O braquiarão, persistente,
abraça as farpas do arame,
sem temer cortar-se.
Logo este, beligerante,
que pretende prender
até as rodas d` água,
que já não corre mais
como antes –
desnecessárias elas
no tempo
das minas abundantes
do antigamente.

IV

E nesse enquanto
o céu e o pedregulho
preparam
a represa
para a viagem circular
pelas estrelas.



V

Caverna de água e sombras de Platão
em traços de impressão.
Qual árvore será verdade
e qual vendaval?
Qual me leve e livre
e qual me lave e salve?
E de onde virá o louva-deus?
E por quais sinos dobram
as bananeiras?

VI

O tempo é mesmo implacável!
O tempo derruba cercas antigas
de aroeira.
E o paiol de milho
que antes abrigava
a fartura das colheitas
e filhotes de gato sem família
hoje é apenas uma porta
aberta para a vastidão do pasto
e para a solidão infinita.

VII

O tempo tudo avacalha
e tudo vilipendia.
O jacá de palha
e o carrinho de mão,
antes pesados e livres,
são apenas ninhos imóveis
cobertos de titica,
suspensos na gameleira,
que em si não se equilibra,
apoiada em troncos amputados,
muletas de seiva morta,
pra manter a sombra torta.

VIII

Antes frondoso exílio de menina,
hoje poleiro de angolas e galinhas,
hotel de jacaré,
que como o barão de Calvino
exilou-se no alto das árvores,
para fugir a seu destino
e do alto chorar
lágrimas e seivas
de crocodilo
e ter no jantar
deliciosos passarinhos.
Deus às vezes
corrige a criação
e dá asas a animais
de sangue frio!

IX

Juras provisórias de amor
de um certo Antônio Alves,
que ninguém sabe quem é,
que amava uma tal de E....
E de Etelvina, de Eterna,
de Élida Divina
e que não contou pra ela
que da gameleira
se fazem gamelas.

X

E ali, perto da inscrição a canivete
galhos que se confundem
como pernas e braços a gemer
no inferno
de Dante Alighieri
e Gustave Doré.


XI
Dessas impressões
de uma fazenda tornada Taperão
se conclui que:
o tempo e as galinhas
tudo transformam em ninho.
Nada escapa à sanha
de inverter-se
e de ter pintos.
Rolos de arame farpado.
Caixotes.
Velhas manilhas.
Pneus há muito rodados.
Pilões de monjolos desativados.
Regos d´água secos
de riachos deprimidos.
E até chapéus de palha,
que saíram a cavalo
ou a passeio
e jamais voltaram
para o seio
de seus cabides.
O tempo deixa mesmo
esse olhar contemplativo
para as paredes.

XII

E de tanto fuçar e ler,
passei a ver
na casinha em que se guardam
badulaques e tranqueiras,
fazendeiros do ar
que respiro.
Invisíveis,
montados em arreios,
balouçando estribos!


Obs: Outras fotos que ilustram esse texto podem ser vistas em meu flickr
( http://www.flickr.com/photos/cassia_fernandes/)
e no álbum deste blog.

23-06-2006

Mil e uma histórias

medium_IMG_3488.JPG

Só o ódio constrói
belas histórias.
Só a arte salva.
Você me quer no seu harém.
Serei sua
Sherazade.

Vou contar histórias mil
para boi dormir,
cantigas de ninar,
até a cuca vir
te comer no meu lugar.

Você vai viver preso
no ventre
de uma mulher que não ama,
como um gênio da lâmpada.
Vai chafurdar na lama.

Foi você que escolheu!
E não sou eu!
Não sou eu!
Nunca serei eu,
a abraçar seu pijama,
manchar sua cama,
vigiar o seu coma.
E fechar seu caixão.

E ela, uma dona,
não abrirá a mão
pra libertar sua alma
em forma de pomba!

22-06-2006

O Anjo da Guarda

São dois irmãos.
Filhos do vaqueiro
da Fazenda Taperão.
Jogavam futebol
na derradeira hora
do dia,
hora da ave maria.

Um deles se abaixava
pra pegar a bola.
Suas mãos espalmadas,
a sombra que por trás
se projetava
e até mesmo
o caminhãozinho
de brinquedo
com as rodas pra cima
lembraram-me
um quadro
nas paredes
da infância:
o Anjo da Guarda
protegendo as crianças
quando a bola
rolava
para o abismo
da desesperança.

medium_w_Anjo_da_guarda.3.jpgmedium_Anjo_da_guarda.jpg

21-06-2006

Calma a quatro mãos

medium_Esp3_20Noivinhos.jpg
Calma é ter o tempo do outro.
É esperar a água ferver
e transbordar
do corpo.
É o tempo de o garçom chegar à mesa
e dizer
estamos fechados
para o almoço
e para a sesta.

E sexta-feira,
quando todos os semáforos
dão vermelho,
ouvir o compasso
do próprio seio
e botar
ou tirar
o pé do freio.
- Calma , não é assim!
- Não queira logo um desfecho
para o que vem
de mim
e do céu que desaba
sobre
nossas grinaldas
de faunos
ou serafins.

Calma é ter pressa de esperar.
E para a dor passar,
meu bem,
devagar,
é preciso vagar.

Calma é ser a noiva
e ainda assim estar no altar,
olhando-a
se desatar dos nós
que deu nos véus
antes de amar.

Cássia Fernandes
&
A.R.

19-06-2006

Mãos que viram flores

medium_IMG_2458.JPG

Colher marias-sem-vergonha e fazer das pétalas, lilases e brancas, pontiagudas unhas, eram uma das minhas alegrias preferidas. Pregá-las com cuidado e um bom cuspe, com um carinho que nunca teria qualquer manicura no futuro de esmaltes, flores pintadas e felicidades postiças. A arte estava em pintar primeiro a mão canhestra e então a direita, sem que um único dedo se descolasse ou se desfizesse. E destreza maior era pentear depois os cabelos com elas.
Ofício engenhoso demais para quem não ousava sequer equilibrar-se no guidão do velocípede. Para quem caía, dobrando-se sobre as próprias pernas, como uma égua ou goiaba velha, ao menor ralho ou rajada de chuva. Muito molenga, demais manteiga-derretida, excesso de contemplativa, diziam.
Minha infância foi de plantas à-toa, de marias-vagabundas; de colchão de noiva, o nome curioso do meu sono espinhoso e irrequieto; de flores amarelas que expeliam um leite secreto e que eu secretamente espremia no seio em promessa, como se amamentasse filhos e fantasias.
Fiz “conzinhadinhas” de flores em fogões de tijolo e diminutivos de panelas. Aliás, todo esse delicioso mundo em miniatura, freqüentado pelas crianças tímidas ou desajeitadas, pelos anões e míopes definitivos, contemplado das gramas e capins em que me deitava, enfeitada por picões e carrapichos. Eu me divertindo com a vida difícil das pequenas criaturas. Eu fazendo florestas de liquens para a minha boneca Tutuca. Ela tinha um corpo desapontado como o meu. Não era Suzi. E as Barbies, para minha sorte e para alívio da poesia, nem tinham nascido.
Não havia equivalentes masculinos para as bonecas ou carros de plástico cor-de-rosa, ou a plástica das casas, corpos e caras. Os namorados delas eram garrafas de coca-cola tamanho-família; os automóveis, sapatos; a sapateira, um lindo prédio de apartamentos em endereço nobre, onde eu nunca moraria.
Eu com meu talento precoce ou inclinação fatídica, tão cedo revelado, para a arquitetura... Por exemplo, quando me ensinaram, na pré-escola da dona Perpétua, que o primeiro passo para se construir uma casa era fazer a planta, aprendi, para sempre e de modo irreversível, que todo desenho de casas deveria começar por uma árvore. Mas por que só uma planta? – eu pensava, até ser introduzida no fabuloso mundo dos plurais e sentidos figurados, e descobrir, na engenharia das frases, minha verdadeira vocação para a vida interrompida.
Por esse mesmo tempo, criei cemitérios para passarinhos e pintos mortos. Confeccionei cruzinhas de galhos para seus cortejos fúnebres. Lavei e areei na bica – tendo ao fundo a música ambiente dos gemidos do monjolo – centenas de pedras brilhantes e cacos de louça colorida. Encerrei nos cofres cavados no caule das bananeiras todos esses tesouros da ingenuidade e da perplexidade dos olhos recém-abertos, juntamente com uns olhinhos de lambari que era costume guardar em caixas de fósforos com talco, como pequenas preciosidades, já foscos e fedidinhos.
Ainda bem que o quintal era vasto e minha mãe ignorava o que eu fazia lá no fundo, sob a sombra dos pés de abacate. E ainda ignora o que faço com meu perfume de dama-da-noite, no fundo dos corredores, com minhas mãos, ainda pintadas de maria-sem-vergonha, que oferecem flores vivas para estranhos, no meio da rua, e flores secas, guardadas no meio dos livros, para desconhecidos.

07-06-2006

Não bata no vidro!

medium_img_aquario.jpg
Voltei a sentir a dor
que havia tempos não tinha.
As palavras me dão enjôo;
o silêncio, vertigens.
Pus novamente uma tarja preta
à porta dos olhos
antes boquiabertos, agora sonolentos,
opacos
como dessas modelos de foto, freezer e passarela.
- Eu me cago para o mundo,
Mas não me cago nunca
porque não tenho miolos
nem desses orifícios porcos
e famintos!

Estou me transformando novamente
em uma samambaia psicodélica.
Viva! Vivam os meus esporos!
Viva o brejo em que fui colhida!

E outra vez a placa
que vigia o sossego
e o desespero dos aquários:
não bata no vidro!
Não há ninguém em casa
ou no fundo dos armários!
Vade retro! Não insista!

Ninguém mais mexe o copo
sobre a toalha branca
da mesa sextavada,
apontando para as letras
dos nomes penados.
Já inexiste metafísica.

Não há mais espíritos, sobressaltos,
taquicardias, cortinas que ventam sozinhas,
teclados de computador que à noite são digitados
por mãos invisíveis,
como se compusessem um romance ou sinfonia.

Não há mais romance nem poesia.
E esse oco no estômago,
essa ânsia de vômito,
essa azia,
não são gazes, amor, gastrite,
são lombrigas, rastejantes, intestinas.

04-06-2006

De amores e outros abismos

O amor é bom assim:
uma frase que nos pega desprevenidos,
um resmungo que a gente não tinha ouvido,
um pigarro, um tossido.
- O que foi que disse?
- Não pise no meu pé que já sou triste.

Como quando por acidente,
Luis encostou no joelho de Iracema
E ela lhe sorriu por educação e pena.
Ao lado dela estavam os únicos homens da festa e da casa,
ou mais ou menos,
os que a cortejavam,
os poucos em que ainda restava um sopro
do masculino
E um gato macho,
chamado Felipe.

E o amor foi como um soco no estômago,
um soluço
que não foi curado com susto,
mas com uma colher de açúcar
daquele afeto repentino.
Assim mesmo amor amargo,
que nem adoça nem se consuma.

Luis lhe perguntou se podia ficar ali ao lado,
com uma estátua paralela,
à espera da pátina do tempo
ou de um sentido.
E Iracema soube,
como que por encantamento,
que esperaria por ele nos milênios seguintes.
O amor como um convite ao desespero,
o amor abismo.
O amor micose
que a gente pega
quando fica de bobeira
na beira da piscina.

Pobre Iracema!
Ela que saía tanto para pegar o amor nas ruas.
Mas amor assim não tem graça,
esses de que a gente anda atrás nos bares,
que a gente troca nome e telefone,
que a gente marca encontro
e beija nas boates.

Esse é o flerte programado,
o carinho-contrato.
Mas para Iracema estava reservado
o absurdo de um amor flexionado
pelo sujeito errado.

Todas as notas