25-04-2007

Um haikai

Chuvas temporãs
não fazem brotar cajás
em pés de romã.

12-04-2007

Caderno de inconstâncias

Este é meu caderno de inconstâncias.
Por ele se vê
que sempre começo
e paro.
Escrevo uma linha
e na outra,

falho.

Parágrafo

Passo dias em branco,
em cabeçalho.
Pulo páginas e margens.

E meu caderno de inconstâncias
vive de projetos inacabados,
de sombras e teatros
que se dão palcos de importância.
E eu nem me dou o cuidado
de borrachas.

As contas de luz e água
se misturam
a altos estudos metafísicos
para alta classificação
em concurso de provas e títulos,
em cargo bastante vago.
A uma remela de olho
a uma réstia de alho,
do almoço,
a um pescoço esganado
e uns versos bastardos.

De vem em quando,
um fragmento de reportagem,
um bico,
um número de telefone,
uma frase aflita
por ser parida.
Mas nem eu mais acredito
que se possa perder assim impotente
a vida.

Mas não são quase todos dessa feição
os humanos e os proscritos?
Exceto os mui disciplinados.
Porque os artistas,
esses são
parasitas
da própria árvore.

E se predestinados,
e se danados por essa vocação maldita,
vivem procrastinando,
contrariando o destino.
E se o deus que lhes
deu
missões, compromisso,
feito algoz,
direto lhes toma
de volta
a voz.

Eis o que se deu comigo.
E o que faço para tê-la de volta?
Hoje não,
hoje tenho preguiça.
Amanhã, resposta,
lhe bato de novo
à porta.
A porta.

P.S: Bom é para Manoel de Barros, que a o menos, em vez de um caderno de inconstâncias, escreveu um Livro das Ignoranças.

10-04-2007

Trovas e trevas

Os poros de minha sensibilidade
estão embotados.
Desconheço tímpanos.
E esta obstrução
será o tédio de estar contigo?
A sepultura do vulcão?
Devo usar bastonetes de algodão,
adstringentes
ou rogar aos deuses
que me mandem
vesúvios de castigo?

*****

O encantador de serpentes
não faz hipnoses,
mas atiça a peçonha
à cobra.
Com conhecimentos atrozes
da lei
do condicionamento
operante.
O encantador é antes de tudo
um behaviorista.

*****

Legítimo ato falho.
Foi ao banheiro
e entrou no berçário.
Eis o que reserva
a primeira carta
embaralhada
ao baralho.

*****

Nós somos esses gafanhotos
roendo o mundo.
E depois choramos
que estamos rotos,
que são os outros
e ficamos hirtos.

Todas as notas