Ok

By continuing your visit to this site, you accept the use of cookies. These ensure the smooth running of our services. Learn more.

26-05-2006

4 X 4


Epígrafe:
“Cores de Almodóvar, cores de Frida Kahlo, cores....”

Já esgotei meu estoque de bunda no chão.
Não fico de quatro,
só de gatão.
Serei 1 de 4,
porque melhor são:
três pássaros na mão
e um voando...
para fazer verão.

Como de hábito,
vou para o quarto,
para o diabo a quatro,
mas não me peça,
não faço
o triste teste do quatro na hora do ato
falho
ou aquela do ninho dos quatro mafagafos
ou dos quatro tigres tristes que comem
trigo
no mesmo prato
de macarrão.

Refrão:

Outras menores que eu
já viveram história
bem mais feliz.
E eu, por que diabos não?
O que diabos fiz
pra merecer sempre um soco
no coco do coração
e no nó do nariz?
E nem falo de estatura moral
ou de não ser a tal –
só me kiss quem me quis
e quis mal.

E assim sou assim:
um quatro à esquerda,
uma foto quadrada,
quatro por quatro,
por cima da mesa
ou gemendo debaixo
do criado -
mudo, emburrado, mimado -
pela Glória de viver
de galho em galho.

23-05-2006

Trovas e trevas



À la Friedrich, não o Nietzsche

Se não agrada,
não diga.
Já basta todo dia
não estar na medida,
do que esperam de você.
Deitar na cama grega
que te estica ou corta
pra caber.
E ser
são tantas coisas esquisitas
e desencontradas.
E os desejos crescem como lombrigas
cevadas nas vitrines das cidades.

Que seja alta no posto
e na cama, baixa.
Que na bonança tenha as burras gordas
e nas vacas magras,
as tetas grandes e a anca vasta!

Se não bastasse a danação de Eva
e a vastidão de Raimunda!
Já chega carregar que saco
de sentimentos e osso
por toda a eternidade,
sem outra rima senão
as rimas sem solução!

Que cabelos sejam grandes
mas bem cortados.
E venham lisos,
mas que haja cachos.
Ser ora Sansão, ora Golias.
Ora amar, ora engolir,
que anda a fila!
Que seja Narciso, mas não Cleópatra!
Que seja Vírginia Woolf, mas nunca prosa!
Loba, mas não cachorra.
Gata, só não jaguatirica.
Basta disso! É foda!

Se não sou o que você procura
vá pra Cingapura!
Quem sabe pra você não há alguém
em belém-belém. Eu nem estou aqui.

P.S: As últimas linhas são quase uma repetição dos meus versos preferidos de Marcos Caiado
"O que você procura
não está em Cingapura.
Pra você não há ninguém
em Jerusalém.
(...) Eu estou aqui."



Sinistras

Torço para que uma pobre alma não tenha tomado por cobiça aquela écharpe. Temo menos por mim do que pelo pobre pescoço que, engasgado de frio, se atreva a usá-la, riscando no rosto a marca sinistra do Zorro! Ela é um pedaço de mim em Paris. E emparedada em Paris, tive sonhos terríveis com forcas. Mãos que amavam com tamanha força. Portas que se cerravam, sem deixar passar frio e um mísero sopro de vida ou de sopa. Fossos profundos. Túmulos para enterrar vivos os próprios filhos. Donzelas de ferro, cozidas em vinho. Calabouços. Aquela écharpe não fará a ninguém belo ou livre E, esvoaçante, dará sempre um aviso aos navegantes: âncora à vista! Aquela écharpe, antes de mim, pertenceu a Isadora Duncan. <img src="http://almofariz.blogspirit.com/images/medium_m8disad_ec001_t.2.jpg" alt="" style="border-width: 0; float: left; margin: 0.2em 1.4em 0.7em 0;" /