07-08-2009
Viver não é tirar fotografia
Em um tempo marcado pelo império da imagem, com o barateamento e o acesso facilitado às tecnologias – filmadoras e câmeras digitais estão bem mais baratas do que há alguns anos – é difícil não sucumbir à tentação de registrar cada momento da vida. E lá vamos nós, hipnotizados, gravando e fotografando tudo e qualquer coisa que não se mexa ou que viva.
Em algumas das últimas cerimônias de casamento para as quais fui convidada, saí sem a oportunidade de cumprimentar os recém-casados. Eram festas grandes, com muitos convidados. E os noivos, antes de percorrer mesa por mesa para receber os cumprimentos, e posar para fotos e filmagens com cada um dos amigos e familiares, ficaram muito tempo, registrando sua felicidade presente para o futuro álbum. Quando chegaram à minha mesa – se chegaram – eu já tinha partido, por alguma outra razão ou por cansaço.
Descortesia a minha, é certo, mas falta uma boa dose de bom senso nas equipes de cerimonial que organizam casamentos e outros eventos similares, e – claro – nas pessoas que contratam esses serviços. A preocupação em registrar os bons momentos se revela exacerbada. O que é tão bom deve ser relembrado, mas precisa sobretudo ser apreciado. É agradável rever tudo depois na TV ou no álbum, as coisas e pessoas como aparecem, mas não se pode deixar de viver a vida enquanto ela acontece.
Em cada época inventa-se uma nova moda. Há algum tempo, era praxe fotografar e filmar apenas o momento da cerimônia e a recepção para os convidados. Hoje, há a prática não só de se tirar fotos em estúdios ou espaços reservados para os noivos antes da cerimônia, como de se registrar até a sessão transformação, o ritual de preparação da noiva, quando ela é maquiada e vestida, numa espécie de making off da própria vida.
Isso não ocorre apenas nos grandes eventos, mas também nas pequenas festas, nos aniversários infantis, nos encontros descontraídos entre amigos. Sempre há alguém pronto a sacar seu celular ou câmara digital. Muitas vezes, lá se vai, nessa pausa para as fotos, a naturalidade, a alegria legítima, pois quase todos nós ficamos preocupados em sair bem na fita, em sorrir, em dizer “X”, em olhar o passarinho, afinal, no dia seguinte, estaremos nas páginas de relacionamento na internet, em verdadeiras vitrines de felicidade e diversão.
Não é muito diferente nas viagens. Quem já viu um grupo de japoneses fazendo seus passeios turísticos não pode deixar de achar engraçado. Todos munidos de suas câmeras que disparam a cada monumento ou passo. Não temos nos comportado de modo muito diferente. Eu, particularmente, adoro uma boa câmera digital e tantas vezes me flagro perdendo o contentamento do presente, para congelá-lo depois, não no papel, mas na tela do computador – a gente já quase não imprime as fotos digitais. Em vez de simplesmente apreciar a paisagem, lá vamos nós tentando nos apropriar da imagem que se desvanece e só na emoção permanece.
Há um ditado popular que versa que o melhor da festa é esperar por ela. Hoje parece que o melhor da festa é relembrá-la, porque o lembrado, afinal, a gente reinventa ao nosso agrado. A gente vai assim substituindo a própria vida, fazendo pose, escolhendo o ângulo, o lugar mais apropriado, a luz, o ricto da boca, quando o principal já passou, para muito além do alcance da lente, na escuridão em que dorme o que se sente. Fotografias e filmagens eternizam situações memoráveis, mas retratam principalmente nossa vontade – coitada! – de segurar, de reter. E de reescrever ao rever e reviver.
17:58 Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail


