21-08-2008
Oração de mãe

Epígrafe:
Em amor e prece
não se põe preço
A gente sonha pro filho
tudo o que de bonito vê nos livros.
A gente sonha que ele seja um livre pensador.
Mas a gente sonha sobretudo
que ele seja livre.
Livre para ganhar o pão
da carne,
sem o diabo amassá-lo
e do espírito,
sem que seja partido em dor
como Cristo.
Mas que Deus o livre
de nosso próprio amor,
armador de grilhões,
chantagista,
do que faz refém:
"mamãe te ama
como não amará ninguém".
Pois a que diz:
"por ti tudo sacrifiquei e fiz"
é a que tranca no ninho,
a do voar não pode,
a que deve a fama Freud.
Dizem que uma mãe
acerta
mesmo quando erra
ou que se erra
o faz na melhor das intenções.
Mas Deus livre os filhos e o inferno
das nossas culpas de mães,
dos nossos rosários de dores e lamentações,
dos joelhos reclamões
de preces e martírios,
dos juros exorbitantes pelas noites mal dormidas,
da eterna ladainha
de Eva punida,
do véu hipócrita
da virgem imaculada que concebeu
e inconcebível.
Deus nos faça lembrar sempre:
ser mãe é antes de tudo um generoso
ato de egoísmo.
E a maternidade consentida
é antes um dar-se prazer e vida.
E o padecer no paraíso
– não nos esqueçamos nunca disso –
foi um padecer e um ser escolhido.
***********
Devo confessar,
ao me tornar mãe,
reaprendi a rezar.
Achei novo porquê de ser cristã.
Mas, Deus,
livrai meu filho de meu próprio mel
e mal.
E a mim,
que eu me mantenha sã!
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