05-07-2007
Você está sendo filmado!

Foi por isso que Rita relacionou como requisito para o casting de seus candidatos a marido, não a altura, a pele, a forma física ou a conta bancária, mas os olhos. Porém, não a cor. Antes, a sua nenhuma funcionalidade. Que não servissem para olhar. Que fosse cego.
A razão é que vivia farta dessa vigilância contínua para com a própria aparência, da preocupação obsessiva com a imagem. Logo ela que, depois de ser modelo, se tornou produtora de moda, agora queria apenas descansar de ser vista, engordar uns quilinhos, andar descabelada, de camiseta velha e rota, de calcinha furada, ter mau humor, parecer infeliz, envelhecer em paz.
Rita sentia que, já há algum tempo, mesmo as pessoas comuns, não celebrizadas, que não têm ocupações relacionadas à imagem, perseguem a juventude e a beleza como se delas dependessem seus salários. Vivem seus big brothers particulares: nos fotologs, nas páginas de relacionamento da internet.
Com os sistemas de vigilância dos edifícios, câmeras digitais por todo lado – até nos telefones, que deveriam servir para ouvir e falar, não olhar – já inexiste naturalidade. E haja maquiagem e haja escova progressiva! E ginásticas e botox e tantas cirurgias! É preciso estar todo o tempo bem cuidada, sorridente, feliz! E, sobretudo, guardar tudo para ver depois. Nas reuniões de amigos, todos os sorrisos se congelam para registrar o momento fugaz de felicidade, que – olha o passarinho – ops, já passou.
Farta da encenação da vida em que a vida mesma se transformou, ela deixou de comparecer às cerimônias de casamento, aniversários, formaturas, inaugurações. Já não suporta o milagre da multiplicação de fotógrafos e cinegrafistas, o pipocar de flashes, um tal de pára aqui, faz pose ali. Os próprios convidados, ora constrangidos, ora deslumbrados, cumprimentando os noivos em imensos telões. E a pobre noiva, acompanhada passo a passo desde o salão de beleza, fabricando caras e bocas, mariposa atraída e ofuscada pelas luzes, preocupada em sair bem na foto, em aparecer bonita na fita, nem se dá conta de quando, sonâmbula, diz sim.
Ela mesma já passou por isso quando de seu primeiro casamento. Nem do momento em que o padre pronunciou a benção eterna se lembra. Mas para isso mesmo existem as fotografias, para se lembrar do que se não viveu quando se dizia xiiiiiis. Aliás, na vida íntima, era como se estivesse sendo fotografada. Não se permitia, nem o aceitava seu exigente marido, descuidar da aparência, sempre impecável. E quando se divorciou, penalizadas, as pessoas diziam: mas vocês formavam um casal tão bonito, ao que ela responderia hoje, ciente da celebração da imagem e seus perigos: formar um belo casal é motivo para tirar foto, não para ficar junto.
Mas Rita espera não fazer essa triste figura com seu próximo marido. Ele certamente não desejará filmagens e fotografias. E ela, com grande alívio, não terá que cuidar de maquiagens, celulites ou vestidos. Apenas manterá bem macia e perfumada a pele. No mais, irá se ocupar em ser, não somente parecer ou aparecer.
Crônica publicada dia 5 de julho em O Popular.
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