27-09-2008

REENTRÂNCIAS E SALIÊNCIAS

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Uma mulher em suspensão


Apreciei intensamente minha gestação. Foi uma gravidez desejada e planejada, se não na ocasião ideal, longe que estou da estabilidade profissional e financeira, no momento em que me sinto madura e preparada para a maternidade. No entanto, devo admitir que de certa forma considero esse um ano (contabilizados os nove meses de gestação e os três meses iniciais do bebê) perdido em minha vida.
Os que idealizam demais a maternidade irão se indignar, retrucando que não posso dizer que se tratou de um ano perdido, pois a maternidade é uma experiência única, maravilhosa, blá-blá-blá, todos esses clichês lindos e inevitáveis que empregam e que eu mesma muitas vezes utilizo. O que me leva a dizer que se trata de um ano perdido é o fato de a gestação e os cuidados intensivos exigidos pelo bebê nos primeiros meses de vida nos consumirem de uma tal forma, que criam uma espécie de lapso em nossas vidas.
Uma prima minha costuma dizer que uma mulher grávida é uma mulher em suspensão. Eu acrescentaria que é uma mulher suspensa de si mesma, uma mulher ausente ou fora de si, para dar lugar, não a um ser, mas a dois seres que se preparam dentro dela: o filho e ela, a própria mãe. Porque uma mulher grávida está também gerando a si mesma, uma outra pessoa e isso pode ser enlouquecedor. Se o menino é o pai do homem, a mulher é a mãe da mãe.
Durante nove meses, um turbilhão de hormônios faz com que por diversas vezes a gente se desconheça, tenha atitudes completamente diferentes daquelas que ordinariamente tinha. São certamente os hormônios que provocam todas aqueles incômodos, o mal estar, a sonolência, as náuseas, a sensibilidade exacerbada, a implicância que – acreditem – não são mera frescura. Nossas mais obscuras idiossincrasias de repente afloram.
O fato de a gente sentir enjôo diante de alimentos que normalmente comia faz com que a gente fique procurando alimentos diferentes, até exóticos. Nunca minha geladeira esteve tão abarrotada de produtos que apenas experimentava, para logo abandonar, enfastiada. Foi-se o tempo das batatas que lá brotavam, solitárias, tristes, mas tranqüilas.
Impliquei com coisas que até me envergonho de confessar, como o cheiro da cabeça das pessoas, que eu sentia a metros de distância, e os pêlos de suas narinas. Cheguei ao cúmulo de pedir que lavassem os cabelos e que depilassem o nariz. Coisas de uma verdadeira maníaca, de uma “psicomommy”, como costumava me chamar meu companheiro, a quem quase matei com as facas cegas da cozinha. Sortudos os maridos que sobrevivem a suas mulheres grávidas. Com tantas alterações de comportamento, surpreende-me que não existam mais recém-nascidos órfãos de pai no mundo.
Somando-se às transformações hormonais e, portanto, psicológicas, vieram todas as mudanças de hábitos que a gravidez me trouxe. De repente, parei de fumar – paciência, foi um bem que veio para bem (sempre fui inconstante até no vício) – precisei parar de correr, o único esporte que eu praticava (nos três meses iniciais, isso não é recomendável e depois já não tive disposição). Engraçado é que por várias vezes eu sonhei que corria, a despeito das recomendações médicas, com um barrigão enorme. Até os hábitos da sagrada vaidade feminina foram mudados, tintura e alisamento nos cabelos proibidos. E não há nada que torture e desoriente tanto uma mulher quanto as mudanças em sua aparência.
Todas essas transformações fazem com que a gente se sinta sim um pouco roubada de si mesma. De repente a gente não pode ser mais aquela mulher despreocupada, que fumava, bebia álcool e café à vontade, que se excedia nos exercícios, que comia qualquer coisa a qualquer hora. De repente nosso corpo não pertence apenas a nós. Precisamos cuidar dele de uma maneira especial, pois nele está enraizada uma nova vida.
Aliás, por diversas vezes, eu sentia realmente que meu corpo já não me pertencia, que eu já não tinha sobre ele nenhum controle. E comando algum sobre minha mente, que só pensava em bebês, em artigos para bebês, obsessiva compulsiva. Como resultado disso, praticamente deixei de escrever, o que só venho voltando a fazer agora, com uma necessidade enorme de ir faxinando a alma. Meu filho nasceu há quatro meses. Eu, no entanto, só agora, estou começando a ver a luz. Só agora a mulher deixou de estar em suspensão, para retomar seu lugar e defrontar-se com uma nova companheira: a mãe. E só, assim, escrevendo, vislumbro este novo ser, completamente novo, estranho e misterioso. Dois seres habitam agora a mesma casa. Sim, porque a outra não deixou de existir, esteve apenas flutuando, amarrada a um cordão. Pretendo escrever mais a respeito deste encontro. E confronto. A seguir. Se o bebê não chorar e a confusão permitir.


Comentários

Como admirador da franqueza e da linha reta, gostei muito de te referires a um "ano perdido". Mas veja que tua severidade para com este ano parece mais uma justificativa para a suspensão dos teus interesses profissionais, atléticos, para com as amizades, etc., pois é claríssimo que não te lamentas ou te arrependes. Talvez seja por isso que as mulheres vivam um pouco mais que os homens. A gravidez é um intermezzo, sem dúvida.

Mas tudo volta depois, volta diferente, mas volta. Palavra de quem tem 51 anos e acompanhou várias grávidas.

Beijo.

Escrito por: Milton Ribeiro | 29-09-2008

Cara Colega de rota, não podia deixar de me expressar perante seus escritos, primeiramente peço desculpas pelas intromissões, são espontâneas de alguém que curte o que vc escreve. Olha tens dentro de teus escritos vc perfeitamente explicita, não vc situação corpórea todavia, vc o Ser mulher indefinida a procura de construção, cabeça curada no sol da existência. Admiro a forma como brinca com as palavras e como faz de suas escolhas e atitudes frasais recheadas, onde expõem suas dores e seus medos e sonhos. Procuro ter essa perspicácia entretanto, acho que isto não é coisa pra todos, somente alguns consegue entrar nesse fantástico mundo da escrita. Ressalto aqui também o seu Ser de Mãe, que requer das mulheres um desapego de si, ou ate pior um morrer pra se e viver em outros, porém ser mãe é antes de tudo ser vida, nos olhos da existência, e dizer não a morte é mudança mas sobre tudo, metamorfose. Metamorfose de escolhas, de postura própria e com outros, enfrentamentos de dores e dissabores e muito mais; embora eu como masculino que sou, morrendo de inveja, inveja boa é claro, de ver em vcs mulheres, a força vital que se formar, assisto apenas como coadjuvante sabendo que nunca terei papel principal nessa sena. Admiro vc e seus escritos e peço, mais uma vez, desculpa por invadir um espaço tão seu. Se o faço, o faço com respeito e admiração.

Escrito por: Antonio Henrique | 30-09-2008

Bom saber que tudo volta, Milton. De fato, devo ter aproveitado o belo pretexto da gravidez, para estar ausente. Ausentar-se às vezes garante mesmo a sobrevivência. E, Antônio Henrique, obrigada pela visita. Não é de modo algum uma intromissão. Aproveito e adiciono teu blog aos meus favoritos, para visitas posteriores.

Escrito por: Cássia | 01-10-2008

Não tenho o que falar! Afff! Estou sem fôlego!

Escrito por: Diogo Matias | 30-10-2008

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